segunda-feira, dezembro 22, 2008

9º Jogo das 12 Palavras - 1ª parte






NATAL

No dia 13 de Dezembro morreu.
Ninguém pensou no Natal que estava a chegar, só ela. Olhava para a avó, olhos secos e pensava no Natal que estava a chegar. Perguntou-se de seguida, olhando todos que choravam, se seria tão insensível como diziam. Adorava aquela avó, mas não conseguia chorar, só se lembrando do Natal que estava a chegar....
Ouviu vagamente a conversa de Alice, um autêntico sofisma, que a todos impressionava pela 'devoção' demonstrada, revirando os olhos mostrando a Alva, apontando o dedo para ela, para que todos vissem que não chorava. Pensou lá com ela que durante a doença da avó, seis longos, dolorosos meses, que a teria ido visitar umas duas vezes. Puxou pela cabeça para visualizar a segunda vez. Não, decididamente tinha sido só uma.
E o Natal que estava a chegar....
Indiferente a todos, ia passando pelos diversos grupos, ouvindo aqui uma coisa, além outra, acolá um outro que se vangloriava da estima que a avó lhe tinha, paralogismo perfeito.
Conhecia-os tão bem, sabia tão bem quem tinha gostado da avó!
Estava a chegar o Natal....
Estavam ali tantos, ela no meio dos outros, sentindo-se como se não fizesse parte daquele clã. A avó fora a única, com a sua bondade, com o seu amor, que sempre a fizera sentir pertença de algo, tinha sido o seu patrono.
E o Natal que estava a chegar....
A 17, juntaram-se todos, uma outra vez, por se ter encontrado um bilhete, dentro do seu cofre, que nomeava quem queria que estivesse presente, para desvendar a carta que lhes deixara.
A carta, qual oráculo iluminado, deixava o pedido de se juntarem todos os Natais, inclusivamente o próximo, dali a oito dias, como se ela estivesse presente. A avó era a única que conseguia todos congregar à sua volta, Natais de festa, de amor, de ternura feitos.
Finalmente alguém se lembrava do Natal que estava a chegar......quem já cá não estava
Além daquela carta, havia uma outra lacrada, em nome dela.
A inveja, por a avó gostar tanto dela, entre alguns membros da família, sempre a tinha notado, mas quando recebeu a única carta individual, que nem deixara a nenhum dos filhos, o ambiente turvou-se.
Um dos tios, o preferido da mãe, que também gostava dela, chegou-se perto e murmurou-lhe baixinho, para nunca se esquecer daquele gesto da avó que tanto a amara, que recordasse, para ser digna dela, que não ligasse às invejas que se sentiam, que depressa passariam.
A preciosa carta foi aberta, lida, guardada e finalmente com as represas rebentadas, as lágrimas escoavam rosto abaixo. Nela a avó falava de um reencontro que se haveria de dar entre as duas, da mudança que a sua morte ia provocar na sua vida, da coragem que teria de ter para a enfrentar, da pena que tinha de não estar viva para poder presenciar o bem que se sairia, da sua fé nela
Nesse Natal todos se juntaram, mas o Natal que estava quase a chegar....não chegou.
O pedido da avó não se concretizou
Aquele foi o último Natal da família
Claras Manhãs
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"Avó

Tinha recebido a carta da avó há uma semana avisando-a da sua vinda. Ansiava pelo reencontro com aquela anciã, de cãs alvos e face iluminada pela sua bondade interior, pois já não a via há algum tempo...desde que tinha tinha deixado o Norte e rumado a Lisboa, altura em que ela, decididamente, cortou com o passado e com a mágoa que paisagens tão familiares lhe trazia, e partiu em busca de novas cores e nova caras.
A avó tinha-a acompanhado desde sempre, quer enquanto adolescente insegura, ajudando-a a desvendar os segredos da sua feminilidade, quer enquanto adulta apoiando-a nas mudanças da sua vida, como esta que estava agora a atravessar. Tinha sido sua patrona por diversas vezes perante a mãe, protegendo-a da ira materna sempre que ela tinha um comportamento considerado mais rebelde, nunca a julgando e sempre estando do lado dela com aquele sorriso sereno e tão tranquilizante. E sempre que ansiava pelo conhecimento da vida e precisava de respostas, recorria à avó como se de um oráculo se tratasse, bebendo aquelas palavras que a alertavam contra os sofismas e paralogismos do mundo, e lhe diziam para não ter pressa de crescer...
Sorriu...
A campainha tocou...
A avó chegou..."

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O paralogismo
do patrono
oráculo de alva carta
a desvendar bondade,
é a mudança decididamente
do iluminado
e o antagónico do sofisma
no nosso reencontro.
Paula Raposo

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METAMORFOSE

Sempre ao fim do dia, depois de horas extenuantes dum trabalho cansativo, havia encontros e reencontros naquele quarto que agora se encontrava iluminado pela luz cinzenta daquela tarde de Outono. Aí, encontravam-se para descansar e conversar sobre banalidades, dois seres, sem história.
Libertavam a imaginação e, deixavam de ser, os profissionais sagazes e competentes, capazes de usar, com extrema habilidade, todas as cartas do seu baralho, para,rapidamente, aniquilarem os seus adversários, para, passarem a ser, naquele espaço liberto de mentiras e veleidades, dois simples humanos.
Ali, sem fazer "bluff" ou usar de qualquer sofisma, abriam a sua alma, entregavam todo o seu jogo e, colocavam em cima da mesa, os seus mais puros sentimentos.
Havia uma mudança do real para a fantasia. O paralogismo usado nas conversas ajudava-os na metamorfose e fazia-os esquecer a parte mais negra da vida. Tornava-os em libertos sonhadores que, falando sobre nada, viviam momentos de verdadeiro abandono às coisas térreas.
Naquele dia, porém, o "patrono", pedira para ser feito uma averiguação mais profunda ao caso a que chamaram "oráculo", a fim de ser possível desvendar toda aquela cumplicidade do trama que tinham entre mãos, já há algum tempo e, cujo desfecho estava tão difícil de encontrar.
decididamente, era obrigatório trabalhar a sério e deixar as quimeras para outra ocasião.
A alva manhã foi encontrá-los adormecidos sobre a mesa de trabalho, rodeados de papéis manuscritos, livros abertos, chávenas de café vazias e um sorriso de bondade no rosto de cada um.

Era bem visível que tinham encontrado a solução do problema em estudo mas, por fim, também o cansaço os tinha apanhado e vencido.
Benó
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impressão digital

a carta vinha, decididamente eivada de sofisma. toda ela escrita com essa intenção.
eu facilmente cairia nas elaboradas falsidades silogísticamente apresentadas não fora o meu patrono, como iluminado oráculo, desvendar a mudança de tom e ritmo _ com os quais as sombras foram artisticamente tecidas, escondendo caminhos, desbravando outros por onde as palavras nos conduziam com mestria, assim, escamoteando a verdade. destacando hipotéticas verdades, apresentadas como absolutas na alva folha onde uma escrita erudita, alinhada numa letra certa, bem desenhada, nos induzia a pensar na bondade e civismo de quem manualmente a escrevera.
a arte e o domínio do pensamento tão certeiros como um tiro no coração.
para o ludíbrio melhor funcionar, de onde em onde, um paralogismo era detectado, mas com uma singeleza quase ingénua que destacava, acentuava até, a pureza das intenções assim tornando mais denso o véu que encobria todo o falso raciocínio em que se baseava.

Passados tantos anos reencontro, nos documentos em minhas mãos, o mesmo ritmo, o mesmo tom, a mesma argúcia e sei, sem sombra de dúvidas, que foi redigido pela mesma mão.

uma extensão da mesma racionalidade neles impressa como uma impressão digital mental.
Eremita

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DESTINO

Encontrei-te.
Depois de um profundo e apertado abraço, olhei-te demoradamente, mergulhei nos teus olhos e vi com alegria que eras feliz.
O teu rosto, emoldurado pelos ondulados cabelos cor de prata estava iluminado com aquela luz especial que só a bondade sabe transmitir. E era esse o sentimento que inundava o teu coração naquele momento.
.
Não me quiseste desvendar o segredo de tanta felicidade mas pressenti que, decididamente, a tua vida iria mudar. Mostraste-me, receosamente, a carta que te fora entregue, no dia anterior.
Sem palavras, li-a em silêncio e, no fim, senti que este nosso reencontro iria ser a alavanca que faltava, para aquela mudnça que há tanto tempo me anunciavas.

Mais uma vez te abracei e com a tua alva cabeça, sobre a minha, como que a protegê-la, estivémos largos momentos em perfeita comunhão sentindo os nossos corações baterem numa cadência perfeita.
Sem sofismas nem paralogismos, afastei-me, pois sabia que o teu destino iria levar-te, mais uma vez, para longe dos meus braços, por essa estrada que me era interdita.
Tinham sido essas, as determinações mencionadas no oráculo do teu patrono através daquela carta que acabara de ler.
Eu iria ficar só.
Benó
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Rude, com ar de iluminado, o missionário subia a escadas de um púlpito rudimentar para o habitual reencontro com a multidão de que se sentia patrono, patrício, irmão na bondade possível, ali, na clareira da floresta, decididamente votado a espalhar uma luz de mudança naquelas almas primitivas. Por vezes sentia-se oráculo daquela gente, as suas palavras pareciam originárias do reino de Deus, e toda a gente ali, pensava ele, o olhava com vontade de desvendar o sentido mágico do sermão do padre velho, cabeça alva, emissário também dos reis longínquos de quem recebia uma carta bem fechada, com selo da corte, e de cada vez que por ali passavam os navios a caminho do Oriente.
No alto das montanhas, entre brumas, vivia um Eremita, pedras em volta, solidão abrangente, mas a religião que praticava não parecia partilhável e ele raramente recebia alguém. O céu dava-lhe, em silêncio, através do espaço, as respostas à sua constante meditação.
Cá em baixo, o missionário recebia com sofisma, as perguntas do povo sobre aquele irmão tão breve de palavras, sorrindo em paz, apesar do seu auto-sequestro e do trabalho de sobrevivência que desenvolvia em volta da sua casa de colmo. O Missionário abria os braços e o seu discurso tornava-se num paralogismo pior do que os eufemismos habituais: então caía em pecado, o seu raciocínio era em geral falso, por vezes redundante e de má fé.
«O eremita, dizia, esconde-se da luz e dos outros porque acredita num Deus apenas para si».
ROCHA DE SOUSA DESENHAMENTO
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O oráculo apresentou-se; a fronte erguida, alva, iluminado pela bondade, a anunciar a mudança do patrono.
Sem ideia de sofisma, não mais que um paralogismo, no desvendar da carta para o reencontro.
Decididamente, a única saída.
Jawaa
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Sofisma!... Paralogismo!...
Acesa discussão prosseguia na ágora.

Num dia decididamente suave,
o eminente oráculo,
no desvendar subtil da mudança das palavras
e reencontro da acalmia e bondade,
emitiu alva carta
ao patrono das Artes:

Iluminado é aquele que aceita
a linha sinuosa dos passos.
Amita
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EXTRACTO DUMA CARTA QUE NUNCA ESCREVEREI


Ainda assim, devo confessar-te

que recordo com alguma nostalgia
a bondade dos tórridos jogos de amor,
naqueles distantes dias em que o fogo da nossa paixão
era vivo, crepitante, breve.


Estávamos, sem disso nos darmos conta,

empoleirados no cume da montanha.

Anos mais tarde, como bem sabes,
perdemo-nos um do outro nas esquinas do destino.
E assim nos mantivemos por uns tempos,
como se ambos carecêssemos
dumas avisadas férias sabáticas,
cada qual a desbravar o seu caminho.

Inesperadamente,
encosta abaixo,
celebrámos o nosso reencontro.

Fomos felizes!
E só agora me dou conta
de como, nessa altura, nos julgávamos
seguros de nós e da nossa relação.
Um par iluminado.

Meu Deus…
Não tínhamos a noção
que representávamos, os dois, no grande anfiteatro da vida,
com máscaras que não escolhêramos,
o êxodo da nossa pequena tragédia.

Por fim, o desgaste insuportável,
o caos anunciado…

Então, já no sopé da montanha,
procurei respostas sozinho,
como se tivesse adormecido exausto
na escadaria do velho templo de Apolo
esperando o oráculo,
o desvendar da tua mudança.

Logro meu…
Sofisma atroz…
Paralogismo infantil da minha alma
que continuava crédula e alva,
de inocente que era.

Não mudaste...

Hoje, não pretendo ser
nem teu acusador
nem teu patrono.

Para mim, morreste.
Decididamente!

Apenas pretendo viver em paz,
em doméstica comunhão
com os meus velhos fantasmas.
Aníbal Raposo
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Alva

Alva senta-se no rodado da saia. O frio que lhe atiça as coxas recorda-lhe as palavras gélidas ainda vivas no papel da carta que acabou de reler. Tanto tempo sem saber dele e agora, assim de repente, tudo e nada.
Diz quem escreveu que falecera.

Talvez.
Alva abana a cabeça, incrédula.
Outros tempos, outras terras. Outras cores. Fora há muitos anos. Tantos que decididamente quase se esquecera do contorno do seu rosto. Era tempo de amor. Quando o calor aquecia o corpo, mais os sentidos.

Alva dos Santos.

Que tempos aqueles. Quase olvidara como fora. O tempo tem sempre destas coisas, lava. Lavara-lhe os desejos, apagara-lhe as memórias. Agora recorda. Sente uma tremedeira que há já muito esquecera. A carta. Maldição. Um desvendar de coisas que julgara sepultadas. Não sente saudades. O passado deve ficar por lá. Já fora joeirado. Depois dançado e iluminado de fogo.

Fora num tempo de verão. Quando as amoras refulgiam de pesadas por entre as silvas. Fora quando o pai fizera aquela promessa ao Santo patrono a propósito das sezões da Lila. Lila era a irmã do meio. Nascera assim fraquinha, e, depois sempre que o verão apertava, a coitada rebolava os olhos, empalidecia, e zás. Caía. Assim pró chão. Desabada. O Chico das Mós, homem de boas promessas e trabalho, empenhou-se a fundo, arrastando toda a família. Alva era moçoila feita por essa altura. Moçoila bonita, muito mesmo. Alva como o nome. Toda ela vibrava. Tinha namoro. Tinha. Até já lá ía a casa, isto é ao pátio, que o pai não era de modernices.

Mas o sofisma da vida, fez que o destino lhe trocasse as rédeas. Jorge Feitor. Ai, ainda lhe rói o nome. Bem-apessoado, bem-falante, bem jeitoso. Tudo bem e bom. Lá foi com o pai até à igreja, à sacristia. Trataram da promessa. Os olhares enviesados que entretanto se iam dando. Os calores. Os sobressaltos. O pai não viu, não reparou. Também fora discreta. Só pelo rabo do olho se encontrarem naquele espaço de cheiro a sabão e cera. Tão lavado e engomado que sabia a pecado só olhar.

Mas naquela noite, deitada na alcova, lado a lado com a Lila que gemia, Santo Deus como aquela alma gemia. Enquanto Lila gemia, e estrebuchava de mansinho, ela rebolava a carne no ardor do cheiro que lhe ficara. Cera e sabão. Decidiu no dia seguinte visitar a igreja. Fazia-o ao domingo com a família. Nunca se apercebera como era bonito! Também de longe e no meio daquela sotaina toda. Pouco tinha para ver. Ah, amanhã ía lá. Tinha que ir.

Levantou-se com os pardais mais o desejo.

Na cozinha encontrou a mãe. Aquela criatura nunca devia dormir. Era a última a deitar-se, ouvia-a de noite, e de manhã já estava de pé. A mãe. Sempre pressentiu nela, mais do que corpo e alma, uma espécie de oráculo de tristeza. Nunca se lembra de a ter visto gargalhar. Os olhos enormes, fundos, as olheiras. Um rosto liso e inexpressivo, mas meigo. A bondade vestia-lhe a pele. Era assim a mãe. Serena ou alheada? Nunca percebeu bem.

-Ó Alva já a pé? O que te aconteceu?
-Nada, mãe. Não tinha sono. Fez muito calor de noite.
-Estamos no tempo dele, minha filha.
-Ó mãe. Como o pai me pediu para tratar do assunto do patrono. Levantei-me cedo para ter tudo em ordem e depois ir até à igreja.
-Ah, mas o pai e tu já não foram lá?
-Já mãe, mas sabe como é, há sempre coisas para fazer…

E fora assim. Visita hoje, encontro amanhã, recado depois. Batina rolada, saia caída e… o mundo mais as rezas, promessas, cera e sabão, tudo desfeito na erva do campo, na alcova por detrás da sacristia. No quarto caiado de branco com o crucifixo na parede. A mudança vestiu-a de mulher. Sabia o quer queria. Não pensava em desistir. Nem Jorge. Como era bom amarem-se. Como se sentia plena. Mesmo quando o cheiro a sabão e cera se misturavam e o olhar do crucifixo a ponteava. Não havia sentimento de culpa. Ela amava um homem. Só isso. Podia durar, queria que durasse. Mas também, não podia.

Era aquele tempo.

Mas, as histórias têm sempre um mas, a Lila, a irmã, a menina das sezões, a doentinha, a tadinha. Não era parvinha, não era, não. Fazia-se. Convinha-lhe. Ameaçou-a. Disse que sabia de tudo. Que a tinha visto. Que a seguira. Que ia dizer ao pai. Que o homem era o padre. Uma vergonha. Uma desgraça.

Alva suspirou.

O último reencontro não foi fácil. Foi de despedida. Não pediu nada, porque nada havia para pedir. Não chorou, porque tinha rido. Não o recriminou. Não tinha que o fazer. Porém, não sentia vergonha, nem asco, nem nada. Apenas estava saciada. Toda. As carnes vibravam, alvas e deleitadas. O resto estava sereno. Tudo.
O seu episódio de vida nunca fora um paralogismo, mas antes o mais puro realismo ideal.

O frio da pedra acorda-a para as palavras.

Levanta-se, entre dentes murmura, enquanto amarfanha a carta. “Ser é ser percebido” foi sempre o que eu quis. Foi tudo o que eu quis.
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a viagem

a Estrela d’Alva anuncia a mudança. as transformações do dia são, decididamente já bem visíveis.
acelero a passada para aproveitar a orientação que as estrelas me dão. elas são a cata pela qual, sem sofisma nem possível paralogismo me oriento. não só no plano físico, geográfico, como noutros planos menos visíveis a olhares despreparados. não iniciados.
sem elas paro. alimento-me e descanso. preparo-me, física e espiritualmente, para nova caminhada mal surjam no céu.
através delas devendo o caminho a seguir iluminado pela sua luz difusa por vezes fortalecida pela fria luz lunar.
preparo-me para o reencontro com o meu patrono. fonte de bondade. oráculo por onde a voz dos deuses passa tal a sabedoria e as profecias correctas e justas que pronuncia.

estendo, no chão, o manto de viagem que me cobre e onde um pouco mais tarde repousarei, acendo uma pequena fogueira e nela aqueço, hidratando-os com água, os alimentos secos que trago na mochila, enriquecendo-os com ervas colhidas ao longo do dia.
agradeço os alimentos e todas as dádivas recebidas. finalmente deito o corpo e repouso.
é então que o cansaço começa a inundar os músculos até que se liberta e o sono me cobre de paz.
Amla
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Decididamente, não há pachorra!
Só pode ser sofisma, a bondade intempestiva daquele sem-vergonha, feito oráculo iluminado, a desvendar mistérios de alva candura, num reencontro para a mudança…Há paralogismo na carta não me agrada a ideia do patrono!
Miruii

9º Jogo das 12 Palavras - 2ª parte












cartas de amor

Julieta entrega ao seu patrono uma carta que decididamente enaltece a sua bondade, sem paralogismo nem sofisma, em que desvenda a sua alva mudança de intenções e agenda um iluminado reencontro com o mais doce oráculo do seu coração.
ana eugénio
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E queria ser a alva do dia em que nasceste.
Eu não queria ver a escuridão no teu olhar.

Eu queria a bondade do teu sorriso.
Eu não queria a tristeza em tua alma.

Eu queria a tua carta e escritos belos.
Eu não queria o teu silêncio, que doía.

Eu queria ver o mar. Decididamente, a teu lado.
Eu não queria lá estar e não te ver.

Eu queria desvendar os teus mistérios.
Eu não queria, porém, os teus segredos.

Eu queria,iluminado, ter-te aqui.
Eu não queria, Deus me salve, ter-te longe.

Eu queria a mudança. Radical.
Eu não queria o marasmo, o não viver.

Eu queria, no oráculo vida, tua resposta certa.
Eu não queria, meu amor, desenganos.

Eu queria ter certezas, boa-fé.
Eu não queria, na verdade, o paralogismo de uma reacção infantil.

Eu queria ser o patrono do teu amor.
Eu não queria, por sinal, ser o teu acusador.

Eu queria o reencontro com a Vida.
Eu não queria o sofrimento e a apatia.

Eu queria, sem sofisma o teu amor por inteiro.
Eu não queria, minha vida, as meias-tintas.

Zé-viajante




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a viagem
a estrela d' Alva anuncia a mudança. as transformações do dia são, dcididamente já bem visíveis.
acelero a passada para aproveitar a orientação que as estrelas me dão. elas são a carta pela qual, sem sofisma ou possível paralogismo me oriento. não só no plano físico, geográfico, como noutros planos menos visíveis a olhares despreparados. não iniciados.
sem elas paro. alimento-me e descanso. preparo-me, física e espiritualmente, para nova caminhada mal surjam no céu.
através delas desvendo o caminho a seguir iluminado pela sua luz difusa por vezes fortalecida pela fria luz lunar.
preparo-me para o reencontro com o meu patrono. fonte de bondade. oráculo por onde a voz dos deuses passa tal a sabedoria e as profecias correctas e justas que pronuncia.

estendo, no chão, o manto de viagem que me cobre e onde um pouco mais tarde repousarei, acendo uma pequena fogueira e nela aqueço, hidratando-os com água, os alimentos secos que trago na mochila, enriquecendo-os com ervas colhidas ao longo do dia.
agradeço os alimentos e todas as dádivas recebidas. finalmente deito o corpo e repouso.
é então que o cansaço começa a inundar os músculos até que se liberta e o sono me cobre de paz.
Amla
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Rompimento por palavras óbvias

Decididamente, este é um assunto que temos que esclarecer. Não entendo porque insistes que não consegues desvendar o sentido do que digo. Achas-me algum oráculo que só pode ser entendido por quem seja iluminado pela alva luz da clara percepção? Em cada reencontro, é recorrente essa tua ideia de que cada raciocínio meu é um sofisma para te induzir em erro. Necessitarás por acaso dum patrono para te ajudar na aprendizagem da língua portuguesa? Não há nenhum paralogismo no que falo, diria antes que o meu raciocínio é uma carta aberta. É muita bondade minha, isto de estar aqui a gastar palavras para te explicar que a minha presciência me avisa de que, no nosso mútuo entendimento, só pode haver mudança para pior. Por conseguinte, solicito-te que não me importunes mais, dada a nossa óbvia desavença no que respeita ao uso da pátria língua.
Vida de Vidro

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Lado negro

Mais uma alta de mais um internamento.
É desta, Tó? – Perguntei-lhe quando o fui buscar.
Sim, é desta. – Respondeu.
Se eu pudesse acreditar nisso! Queria tanto acreditar! Mas, decididamente, não me parece que vá ocorrer mudança no seu comportamento. Até porque o seu aspecto e a sua voz o denunciam. A droga e a delinquência encontraram nele poiso.

Encontrei-o, ainda nesse mesmo fim de tarde, na igreja. De pé, bem no meio, muito embrenhado com algo na mão… parecia um livro de cânticos, ou um papel… talvez uma carta ou oráculo do Santo Patrono.
Seria muito bom que esse reencontro com o espiritual lhe permitisse sair de lá iluminado por uma alva luz, com a qual pudesse desvendar o que constitui um mistério para ele, e que mais não é do que todo o seu tesouro, que enterrou não sabe bem onde, mas que se encontra dentro de uma caixinha envolta num papel colorido de bondade.

Mas não. A ida à igreja deve ter-se revestido de algum sofisma, disseram-me depois.
No entanto, custa-me pensar que possa ser assim. Preferia não ver as pessoas pelo seu lado negro, mas o receio de ser atraiçoada por algum paralogismo leva-me a não poder descartar certas possibilidades.
O lado negro muitas vezes leva vantagem.
Fa Menor
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Profecia

não foi paralogismo, o oráculo de outrora.

o sofisma foi intrinsecamente verídico.
Sustentado por um patrono
decididamente crente.

apesar da chama florir alva,
fés cegas sucedem-se em exemplos perdidos.

mas o reencontro é alcançável.
qualquer caminho é iluminado!

e a carta,
bordada em linhas de bondade,
une a liturgia dos tempos, proclamando:

na mudança aguarda o desvendar!

VFS
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Luz
- Encantei-me com a bondade de suas palavras escritas em pedaços de plantas e papel rugoso. A carta que idealizei nunca me foi entregue. Imaginei que cada inferência reproduzida em seu pensar poderia algum dia ser-me dirigida. Porém, deparei-me com um sofisma. O paralogismo surtiu efeitos a curto prazo. Não considero a hipótese de sonhar a longo prazo.
- Mas, quem te disse que os sonhos têm barreiras? Cada um é livre e patrono de si!
- Decididamente, a mudança é um dos chinelos no encalço da minha vida. O outro será um reencontro comigo quando desvendar algo iluminado… Talvez o oráculo me guie pela Luz alva e me transmita um arrepio de amor.
Eli Rodrigues

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porto de abrigo

recordo a sua voz a dizer-me em tom de oráculo: toda a cisma gera sofisma.
Alva, era um ser iluminado. Decididamente tinha a capacidade de desvendar a alma do ser humano nos seus mais esconsos recantos e mistérios.

alma de grande bondade percebia, antes de qualquer outra pessoa os ventos de mudança, quer fossem colectivos quer individuais. nunca usou em seu proveito esse poder ou dom. nunca utilizou qualquer paralogismo nas respostas que nos dava quando inquirida sobre alguns assuntos, por mais melindrosos.

a vida segue o seu curso e no decurso desta muitas vezes nos afastamos geograficamente de pessoas significantes em nossas vidas. foi isso que aconteceu entre mim e Alva. e digo, entre mim e Alva porque fui eu quem partiu. ela continuou na velha mansão a cuidar de tudo e de todos.

a chegada da carta, escrita pelo seu punho. com a sua letra alongada, quase cuneiforme, deixou-me intrigado. várias vezes a virei e revirei antes de me decidir a abri-la.
anunciava-me o nosso reencontro, pois chegaria dentro de dia e meio.
se esta viagem era, por si, razão de surpresa dado Alva nunca ter saído da terra, da mansão e terrenos ao redor. o facto de me designar por patrono deixou-me estupefacto e curioso.

se justiça havia no mundo e alguém merecia essa designação era ela. não eu.
o que significaria tal inversão de papeis ao dar-me tal tratamento?

tentei manter-me imerso no trabalho pois o facto inédito da viagem e o título usado tornavam-se uma inquietação cada vez maior.

chegada, falámos de tempos vividos. deu-me notícias de nascimentos e falecimentos, de alterações ocorridas na terra durante a minha longa ausência.
sabia que de nada serviria questioná-la sobre os dois factos que tanta estranheza me causavam.
falaria quando chegasse o momento certo. o equilíbrio necessário estivesse reposto entre nós depois de tanto tempo.

falou e eu, estupefacto, nada fui capaz de dizer. viera anunciar-me as medidas a tomar dentro de poucos dias pois chegara a hora de partir. viajar para o outro lado do véu, disse.

as lágrimas afloraram meus olhos, a alma encolheu-se dentro de mim. voltei a ser o menino de quem sempre cuidara e perdido me senti.
estivesse onde estivesse, sabê-la viva, na mansão, era a fonte de toda a minha energia e segurança. agora o meu eterno porto de abrigo movera-se para vir dizer-me que chegara a hora, que se ia….
depois me disse que eu era muito mais do que imaginava. não era um homem comum.
ao longo dos séculos sempre viera para jogar um papel importante no seio da humanidade. ela fora a minha guia nesta vida, mas os meus poderes eram superiores aos dela. eu era o patrono. ela a eterna seguidora, a discípula. mas estava honrada com a missão que tivera nesta encarnação.

chegara a hora. devia retornar à mansão e preparar-me antes da sua partida, pois havia muito trabalho a fazer. sabia-me pronto. só tinha que aclarar a visão interior e re-ligar-me ao meu eu superior de que a vida mundana me mantivera deliberadamente afastado até ao dia certo. e esse dia chegara.
TMara
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em boa hora

foi sem sofisma que me ofereci para te levar ao hospital. é certo que tirara a carta havia pouco, mas, decididamente sentia-me apto e sem receios.

o caminho, iluminado pelos faróis deixava-se desvendar e a confiança crescia em ti.
o carro, de boa cilindrada, respondia bem às mudanças e a tua bondade intrínseca fazia-me confiar que ficarias bem. que a morte te não colheria ainda.
sempre foras o meu patrono. meu anjo tutelar.
de tua boca, sem qualquer paralogismo, saíam verdades como da de um oráculo.

bendisse a hora do nosso reencontro, pois podia assim prestar-te serviço.
levar-te ao lugar onde a morte seria de ti afastada.
estavas isolado no campo. deixaras os telefones na cidade e a perna partida, as costelas esmagadas, ao que tudo indicava a perfurarem-te um órgão, impediam-te a condução.
se não houvesse chegado naquele instante morrerias esvaindo-te em dores e sangue.

falava-te das pessoas que conhecíamos, dos locais por onde andara, tentando manter-te acordado.

a luz da alva anunciava o aproximar do dia e também da cidade. do hospital.
ouvi-te suspirar e de seguida o silêncio abateu-se sobre a viatura. chamei-te: Eduardo…
insisti, sentindo o coração disparar de medo. respirei fundo para acalmar. tornei a chamar-te suavemente e, tirando uma mão do volante, toquei-te ao de leve.
Ouvi a tua voz. fraca mas tua, perguntar: chegámos?
Dark

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Sonhar, sempre!

Escrever uma carta, um artigo, um livro e desvendar o que mais profundo nos vai na alma pode ser um paralogismo, decididamente.

Pode-se escrever muito e nada dizer, pode-se imaginar situações, ter projectos, sonhos, viajar por países onde nunca estivemos, passar por quem não somos... É um exercício cujo patrono da boa escrita nos ensina com a sua bem conhecida bondade e sabedoria.

No reencontro da leitura com a escrita senti-me iluminada e recomecei a escrever na alva de uma qualquer madrugada, dando-se a esperada mudança, brotando uma prosa simples, ao sabor da pena, do que me vai na alma, na necessidade de deitar para fora, quero dizer, para o papel o que, muitas vezes, não posso dizer ou não consigo. Dizer a verdade, é bonito e leal, mas nem sempre se pode fazê-lo, com a agravante de magoar quem não queremos e não conseguir articular as palavras certas.
Querer dizer sempre o que se sente é um sofisma.

Dediquei-me à escrita com amor e alma, dedicação e empenho e em breve espero publicar um livro, mais um que encherá as estantes de tantas livrarias que pululam a cidade e os Centros Comerciais, mas se é um sonho, porque não realizá-lo? Os sonhos comandam a vida e se os deixarmos de ter… morremos antes de morrer. Não há quem o leia, quem o compre, quem o saiba entender, problema deles, não sabem o que perdem… talvez gostassem e se comovessem com as minhas histórias.

Dei trabalho a umas tantas pessoas, realizei o “meu sonho”, assim, fui mais feliz, ganhei mais uma batalha, saltei mais um obstáculo.

Poderia ter sido um oráculo mas ao acordar, porque o cansaço instalou-se de tanto escrever, olhei o computador e ali estava um texto à minha espera.

Deixar de sonhar . . . nunca!
MJ
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Clareava

Nem era pela luz difusa que entrava pelo cortinado depois de atravessar a renda.
Nem era pelo tom leitoso que escorria de uma frincha estreita a afagar o tapete e a esgueirar-se entre as pregas do lençol que lhe cobria o corpo.
Sabia que era chegada a madrugada, por uma certeza que a ia inundando, que a fazia remexer-se, entreabrir a boca, dar pequenos estalidos meio babosos, entreabrir e cerrar os olhos, e puxar, com uma quase fúria, a roupa para junto da orelha encolhendo-se no corpo até quase lamber os dois joelhos.
Era esse trejeito de se deixar ficar mais um instante, de ronronar como cria mal nascendo, que lhe anunciava a alva a noite a ser engolida pelo dia seguinte.
O quarto quase a ficar iluinado

***
Fora uma noite grande.
Ouvia-se dizer.
Que começara numa chuva pingando.
Que nem trovoada, nem o céu nublado.
Que fora uma revoada, um silvar de vento levantando roupas em estendal e a chuva engrossando.
Que a cada um nem sobrara o tempo de perceber de que estava morto.
Ou talvez:
Os que ficaram olhando o escorrer das terras em cima de um empedrado preso por aquilo a que se diz milagre.
Os que olharam a sua morte ali rondando.
Os que ficaram à espera, talvez rezando orações que nem sabiam, que a lama, as árvores, a casa do Batista e a casa da Hermínia, fossem despenhar-se noutro local que não aquela ilha de onde observavam – telhados, uma chaminé, bocados de paredes, um piano, duas colheres de pau e um boi. O senhor padre tentando boiar e escorregando.
Os que terão ficado para desvendar o acontecido, esquecidos do que nem viram, que eram eles num segredo para que a morte os desapercebesse.

***

Terá ouvido os ruídos de dentro do que julgou ser sonho.
Talvez tenha pensado que fosse o reencontro com o rumor da cidade que despertava lá em baixo.
Um paralogismo que era ela pensando, entre a noite e o ser já dia claro.
Terá, que era seu costume, ronronado e virado de lado.
Poderá ter-se apercebido de uma luz diversa naquele iniciar de dia.
E nem terá sabido que era a cor da lama: um mar entrando pela renda e ela nuazinha a gritar um socorro que nem sabia ao que chamava e nem se era verdade ou sonho toda aquela água.
Nos jornais não sobraria lugar para dizerem o seu nome.
Maria do Rosário, solteira, vinte anos.
(Amante do coronel, diriam muitos se lhes fosse dado lerem a página de necrologia por baixo de uma foto tirada no dia em que fizera exame)

***

- Dia 24 de Dezembro.
Foi o que respondeu.
E acrescentou, em tom mais baixo:
- Véspera de Natal.
A senhora muito jovem cheirava a perfume e sorriu-lhe.
- Boas festas, Coronel! – e foi andando em cima de uns sapatinhos de salto fino, encarnados, brilhantes de verniz a contrastar com o chão molhado e a lama que também entrara pelas casas cá em baixo.
A contrastar com a manta e o mastigar do pão que ia molhando em leite morno: uma caneca que lhe deram numa bondade a dizer com a circunstância.
Ele respondendo à pergunta que ela fizera:
- Sabe que dia é hoje?
E ele a aconchegar-se na manta, a sorver o reconforto do leite morno, sem perceber o desaguisado da pergunta.
No bigode ficavam-lhe, escorrendo, duas pingas brancas. O leite sujando o cinzento da
manta com duas riscas vermelhas que faziam ângulos sobre as costas ainda mal enxutas. Nuas, que ele sempre se deitava despido sobre os lençóis brancos: a ventoinha zanzando lá no alto e ele babujando os lençóis com um suor que lhe pingava em todo o corpo. Bagos grados deslizando-lhe das dobras. Como lama.
Hismaíl Domingues Conceição. O Coronel Domingues, como era conhecido.
Oitenta e quatro anos arrastados para cima do telhado.
Dirá que a morte o empurrara segredando: “ainda não és tu”
E ele subindo que a chuva desmedida inundava a casa, subia o nível da ribeira, lavava-lhe os suores e ele que tremia, nu, a olhar a morte andando em volta.
A água descolava as terras e mais as casas e despenha-as pela ribanceira.
Disseram. Viram.
***

Uns metros mais abaixo, Maria do Rosário acordava numa alva estranha.
Decididamente, ela nunca iria responder:
- Hoje é dia 24 de Dezembro.
E acrescentar em tom mais baixo:
- Véspera de Natal.
***

O sol brilhou.
Uma rodela amarela emoldurada num céu sem nuvens, apenas esbatido o azul numa neblina muito ténue.
Nem pinga de chuva.
Nada que explicasse as casas e os telhados e os haveres, como cartas desarrumadas sobre a mesa depois de um jogo.
Um sol muito amarelo a apressar o apodrecer dos corpos.
Aquele moleque abraçado ao gato.
Aquela mulher que teria ficado nos preliminares do que seria uma longa noite.
Mortos embolados em lama, de olhos muito abertos.
Tão nus quantos Hismaíl Domingues Conceição. O Coronel Domingues, a beber leite morno enrolado numa manta com riscas encarnadas a fazerem ângulos nos dobrados do corpo.
Os vivos que ficaram, a poderem pensar apenas por sofismas.
Nem a igreja, já quase só oráculo de domingos e dias consagrados, fora deixada ilesa: o santo seu patrono, boiava, desprendido do altar, numa correnteza amarela, entre dois carneiros e uma bicicleta sem selim nem roda da frente.
E morrera o padre.
Quem o disse, alto, falando com uma mulher de vestido com florinhas amarelas, foi a senhora dos sapatos encarnados. Disse assim:
- Morreu muita gente. Morreu o senhor padre Armando.
E a outra, olhando de soslaio o Coronel quase nu na manta de riscas:
- E a Maria do Rosário?
Disse assim a menina dos sapatos vermelhos:
- Essa, morreu na cama.
E olharam ambas o velho Coronel a limpar o bigode numa risca da manta.
E riram-se ambas, embora cada uma o tivesse feito de modo muito discreto, com uma pontinha de vergonha.
***

Foi quando soou o grande grito.
Desenrolado da manta, vagando nu, o sol enxugando-lhe suores e restos de chuva, a boca aberta num grito salpicado de pão embebido em leite. O Coronel Domingues a perceber a mudança.
(Maria do Rosário, vinte anos, sua amante.)
O Coronel a perceber a questão colocada pela senhora muito jovem que cheirava a perfume.
A véspera de Natal não acontecera: morrera embolada na lama.
Mcorreia

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a mudança
o acesso mal iluminado criava uma aura de mistério alimentando-o nos espíritos já predispostos à crença nas coisas do além que ali se dirigiam. racionalmente sabia que tanto podia ser um sofisma como um simples paralogismo tudo o que meus olhos vissem ou o que me fosse dito. seguindo as indicações do meu patrono estava disposto a arriscar. decididamente a mudança impunha-se e necessitava uma orientação. havia uma área de penumbra que meu espírito não lograva desvendar. na porta antiga, de bom carvalho envelhecido uma placa informava: Alva dos Anjos. vidente, cartomante….
o resto não estava legível dada a penumbra da entrada. toquei a campainha e aguardei, seguro da bondade cósmica que guiaria meus passos e me orientaria na necessária descodificação.
a porta abriu-se devagar, sem um som. ante mim uma salão amplo com um enorme vitral por onde a luz do dia era filtrada de forma ricamente cromática iluminando-o q.b. sendo a restante luz proveniente de velas sabiamente distribuídas. uma figura longilínea, sem uma palavra, fez-me sinal para que me sentasse numa poltrona e aguardasse. assim fiz enquanto escutava a música que parecia irradiar das paredes enchendo suavemente o salão. deixei que a música me preenchesse e entrei no modo de meditação. inesperadamente uma voz com um timbre inexplicavelmente musical, disse: boa-tarde. abri os olhos e diante de mim estava Alva.
Alva Maria dos Anjos Rodrigues (AMAR). o primeiro amor de minha vida. luminosa figura quase translúcida, tal a luz que emanava.
este reencontro acordou memórias e sentimentos há muito arrumados num canto de meu ser. olhámo-nos longamente me silêncio. cada um entregue às recordações que o assaltava. ao fim de um tempo a voz de Alva, profissionalmente, fez-se ouvir: por favor siga-me. conduziu-me a uma mesa colocada num ângulo do salão onde os raios solares filtrados pelo vitral incidiam recriando as imagens que o cobriam. sentámo-nos e, sem nada perguntar, Alva dos Anjos pegou num baralho de tarot. passou-mo para as mãos, aguardando que o baralhasse e cortasse. estendeu-o sobre a mesa, voltou a juntar as cartas na sua mão esquerda e começou a retirar carta por carta. a primeira que foi virada foi a do oráculo
Sereia
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demandas

o iluminado, questionou o que a turba contra mim clamava.
ergueu os braços. as palmas bem abertas viradas para a fúria da multidão e clamou: vou purificar-me, vestir a alva e consultar o oráculo.

a mulher não pode ser condenada na base de qualquer sofisma. é necessário desvendar a verdade. a BONDADE da nossa sociedade assim o exige.
enquanto me preparo e purifico é necessário que, de entre vós, um de vós que a conheça e acredite na verdade da sua mudança avance e se prontifique a ser seu patrono e, juntamente com uma vidente trace a carta de vida desta mulher sem margem a qualquer paralogismo ou erro para que, se for essa a determinação do deus, possamos avançar decididamente e libertá-la da falsa realidade em que se enredou permitindo-lhe o reencontro com a única verdade do universo, lei que nos rege e pela qual vivemos.
ide em paz. cumpri a vossa parte que cuidarei da minha e far-se-á segundo a palavra do orago.
TMara
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Bem sei que vos é difícil aceitar uma verdade que não existe. Mas a realidade é que ela já faz parte da vossa vida.
Será paralogismo olhar o vosso oráculo?
Será um sofisma para o qual ainda não estão preparados?
Organizai-vos para a mudança. Estais perante um ser iluminado.
Só os raios de luz imanados pela alva me tornam visível.
Chamai-me pois patrono, pois, decididamente, só eu poderei fazer a diferença.
Desvendar o teor da carta será um reencontro com a luz.
E luz sou eu, sou a bondade que vos guia.
Sou terra, água e ar.
Sou a verdade que procuram…
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Carta ao lado sombrio das luzes

Sempre achei que o Natal nascia na data errada… A pressa das pessoas, a angústia porque falta mais uma prenda. A mudança do ano que se avizinha...
Decididamente o Natal deveria ser “quando um homem quisesse” e não transformado num sofisma, embrulhado num papel de cores garridas e com um laço a coroar o paralogismo.
Talvez nunca tenha sido criança. Talvez tenha sido sempre demasiado adulta e tenha conseguido desvendar - não, desnudar… - o olhar mal iluminado do ser que caminha na minha sombra, e que há muito percebeu que a bondade não é algo intrínseco dos seres humanos.
Um argumento cínico a juntar a todos os outros argumentos falhados ou concebidos para falhar? Talvez. Sempre o velho e estafado “talvez”, tenho que admitir…
Olhamos para o cartão de crédito como se ele fosse o oráculo que nos vai salvar. Perscrutamos saldos de conta que se mantêm em constante movimento, na ânsia de transformá-los em elásticos de criança. O ATM devolve-nos, com pequenos ruídos irritantes e sempre iguais, a medida da nossa incapacidade. Queixamo-nos da crise. E, amaldiçoamos - à sombra do egoísmo oculto que não se furta a colar-se-nos - que são demasiadas prendas para tão parco saldo... Esquecidos que a humanidade não nasce de um embrulho.
Mas depois prometemos que esta data fará sentido. Sim, porque é Natal e tem que fazer sentido… Até ao momento seguinte em que damos uma bofetada na vida, e em nós e nos outros, pois rapidamente viramos a face, apáticos, às lágrimas dos que, a cada hora que passa, morrem sós... Criaturas sujas pela dureza da vida que foi e já não é, e que deixaram há muito de vislumbrar a maior árvore de Natal da Europa.
Os homens morrem de pé, como as árvores... porque o chão é frio, as gotas frígidas da chuva destruíram o tapete quente dos tempos de Verão.
É assim o Natal, os olhos alvos – cegos. Deixamos a vida dos outros interrompida, à espera que a “época da esperança” passe e possamos finalmente recomeçar a drenar os esgotos infectos do universo que nos rodeia. Mas sempre com “paninhos quentes” que a verdade pura e dura seria forte demais.
O Natal passa e sucede-se o reencontro com aquele sossego que “não é carne nem peixe” dos meses que se seguem. Porque este ano escapámos às estatísticas do desemprego. A casa ainda é nossa. Os filhos ainda vão ser doutores e na televisão ainda dá a mesma novela. Não perdemos nenhum capítulo. Nenhum golo do Benfica, do Porto, de outro clube qualquer...
patronos de nós mesmos, suspiramos baixinho... Que para o ano que vem vamos fazer tudo diferente.
Raquel Vasconcelos
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DA MINHA MENINICE
Era eu ainda criança, mas passados tantos anos, Num momento iluminado, sem paralogismo recorro ao meu oráculo, e falo-vos! Não como S.Francisco fez aos peixes, a tanto não me atreveria, Mas falo-vos com o coração e para que decidadamente fiquem a conhecer alguns episódios reais da minha meninice e em que o pai, patrono, homem de bondade, apesar das suas dificuldades económicas , tinha sempre na sua (nossa) mesa, lugar para quem se aproximasse seria bem recebido...
Este pai de que vos falo era o meu, já não está entre nós e neste momento sinto-me a escrever-lhe uma carta na certeza de que o nosso inevitável reencontro será um momento de paz e amor !
Na sua (nossa )mesa sentaram-se presidentes, ministros democratas,gente ligada a todas as áreas da saúde, advogados,escritores , ciganos e pasme-se: malteses.
Certo dia de alva manhã, na estrada frente á casa de meus pais, em cujo largo existe um chafariz de água não potável, ao lado repousava um ancião de trajos andrajosos, barba e cabelo sujos e em desalinho,sapatos que há muito haviam deixado de o ser.
Por sofisma ou outra razão qualquer por desvendar , o pai dirigiu-se-lhe, convidou-o a ir até nossa casa, aqueceu água na lareira e disponibilizou um espaço onde pudesse tomar banho.
Queimou as roupas andrajosas que lhe ocultavam algumas partes do corpo..
Deu-lhe roupas limpas e confortáveis, fez-lhe a barba, deu o jeito possível no cabelo, e convidou-o a sentar-se á nossa mesa onde , numa tigela, já fumegava uma açorda de coentros, ovos e bacalhau que a mãe acabara de preparar.
Comeu como se fosse da casa e nos conhecesse desde sempre, nos seus olhos um brilho de felicidade, de agradecimento , quiçá de admiração.
Terminada a refeição e antes de seguir viagem o pai entregou-lhe um saco de pano com pão, chouriço e algumas uvas, deu-lhe ainda 20 escudos
uma fortuna naquela época , acreditem.
Agradecido despediu-se e fez-se á estrada.
Como vos disse, eu era criança, assisti entusiasmada a toda aquela mudança , e jamais esquecerei o brilho daquele olhar.
Naquele dia , eu criança, pensei entre tantas outras hipóteses, que aquele ser seria Jesus feito homem..
Hoje, passados tantos anos não sei quem era, mas sei que o pai acabara de praticar mais uma das suas boas acções, e isso alegra até hoje o meu coração...Obrigada pai por tudo o que me deste, me ensinaste e me serve de lição até hoje..
Onde quer que estejas, um abraço pai....

quarta-feira, dezembro 10, 2008

uma notícia em flor


Recebi, da Eli Rodrigues, uma notícia que me deu imensa alegria e quis partilhar convosco.

« (…) Na escola onde trabalho, todos os dias temos o "Momento de Leitura".

No dia 24 de Novembro, apresentei o nosso livro e expliquei como tinha surgido, como um exemplo de escrita criativa.
A seguir, jogámos também com palavras ditas pelos alunos.
No dia seguinte, apresentaram-se textos belíssimos!!! (…)»
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E do amigo Vicente Ferreira da Silva recebi a notícia que divulgo com prazer pela importância que tem.
O Presidente da AMI, Dr. Fernando Nobre, acaba de abrir um blogue. Imperdível!
Divulguem, por favor.

terça-feira, dezembro 09, 2008

A morte absoluta


Morrer.
Morrer de corpo e de alma.
Completamente.

Morrer sem deixar o triste despojo da carne,
A exangue máscara de cera,
Cercada de flores,
Que apodrecerão — felizes! — num dia,
Banhada de lágrimas
Nascidas menos da saudade do que do espanto da morte.

Morrer sem deixar porventura uma alma errante...
A caminho do céu?
Mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu?

Morrer sem deixar um sulco, um risco, uma sombra,
A lembrança de uma sombra
Em nenhum coração, em nenhum pensamento,
Em nenhuma epiderme.

Morrer tão completamente
Que um dia ao lerem o teu nome num papel
Perguntem: "Quem foi?..."

Morrer mais completamente ainda,
— Sem deixar sequer esse nome.



Manuel Bandeira

sexta-feira, dezembro 05, 2008

9º Jogo das 12 Palavras

Amigas e amigos, hoje a festa dos 22 OLHARES SOBRE 12 PALAVRAS é em Lisboa.
Uma forma de me juntar à festa é colocar as palavras para o 9º Jogo que continua aberto a todas e todos que se quiserem juntar a nós neste viv«cinate e rico desafio mensal.
E a TMara, para que me sinta ainda mais convosco fez uma "gracinha" que me comoveu "dando-me ordens expressas de o trazer ao peito, a partir das 19H30, hora de Lisboa.

AQUI FICAM AS 12 PALAVRAS.
NÃO ESQUEÇAM QUE A DATA LIMITE PARA ENVIO DOS TEXTOS É O DIA 20 DE DEZEMBRO.
E AGORA, VAMO-NOS A ELAS?




----- " " -----

E deixo o meu muito obrigado a todos os jogadores pelo seu empenho, pela labuta com as 12 palavras de cada jogo, e pela riqueza que têm trazido a todos os outros, surpreendendo-nos com belos textos, mês a mês.
A minha gratidão aos amigos que generosamente embarcaram na nossa aventura: o editor da EDIUM, Jorge Castelo Branco; ao prefaciador, José António Barreiros e ao apresentador Jorge Castro.
Bem-hajam pelo apoio dado.

O meu muito obrigado a todos que se juntaram à festa destes aventureiros olhares, no Porto e hoje em Lisboa, desafiando as palavras e por elas sendo desafiados. Só posso desejar a todos que a leitura do livro vos dê tanto prazer quanto nos deu e continua a dar a escrita mensal em torno de 12 palavras que por vezes parecem tão estranhas e distantes entre si e que acabaram por se impor sob a forma de livro.

sábado, novembro 22, 2008

8º Jogo das 12 Palavras - 1ª parte

Hoje é um dia de festa.

Um dia de jardins floridos em 22 almas através dos seus múltiplos, vários e ricos OLHARES, por palavras expressos,agora ofertados a quem os quiser ler numa edição Edium, com capa e separadores da nossa Raquel Vasconcelos

Um jogo, algo que nunca se imaginou mais do que uma actividade lúdica na blogosfera, ganha a dimensão de livro e será hoje apresentado publicamente, 16H00, no Palacete Viscondes de Balsemão -Porto, à Praça Carlos Alberto.
A tarefa de dele fazer pública informação e dizer deste projecto, cabe ao amigo Jorge Castro , blogger e poeta ( a ordem é arbitária) .

O livro 22 OLHARES SOBRE 12 PALAVRAS é prefaciado por outro amigo, escritor e blogger, José António Barreiros e conta com citações, graciosamente cedidas pelo escritor António Rebordão Navarro a abrir cada conjunto de textos.
Venham até cá fazer a festa connosco, pois quantos mais os olhares mais floridos serão os jardins do mundo.

Por outro lado, a companheira de aventura, desde o 1º Jogo, a Elsa Nyny que andou ausente, embrenhada na execução do seu 1º livro individual, apesar de muito atarefada com o acompanhamento da finalização do mesmo, quis juntar-se à festa e, solidariamente escreveu
um belo texto para hoje.


Deixo aqui o convite que a todos endereçou: o livro Mares D’Alma de Elsa Sequeira será apresentado, Segunda-feira, 1 de Dezembro às 18H30, na Junta de Freguesia de Retaxo - Av. Dr. Augusto Beião - 6000-621 Retaxo. Para mais informações clica aqui.
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Mas as novidades não terminam aqui. Depois de anos e anos a Sónia Pessoa, também companheira destas aventuras com 12 palavras, acaba por ver os textos que desejava em livro e que com tantas recusas transformou em blogue serem editados.
Estamos convidados.
Apresentações:
- 6 de Dezembro (15h) - Fnac Alfragide/Lisboa -a cargo da jornalista Ana Leal
- 13 de Dezembro (16h) - Fnac Gaiashopping/VN Gaia

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E agora a voz aos autores dos textos deste 8º Jogo das 12 Palavras, hoje postado, em festa com o nosso livro, 22 OLHARES SOBRE 12 PALAVRAS.
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NOTA - na 3ª parte há um texto novo da Raquel Vasconcelos. Entrou fora de tempo, mas considerando as circunstâncias está lá e vale a pena lê-lo.

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No eremitério, antigo lugar que abrigava velhos eremitas dedicados, no silêncio, a uma espécie de infinitude do ser, havia musgos meio escondidos nos recantos da fortaleza conventual, sincelo orlando beirais e abrigos, mãos em prece matinal e a preparar, com misticismo, o trabalho do dia. Num estado de comiseração perante os povos abandonados em redor, os representantes da solidariedade, apesar de duramente esquecidos, levavam pão aos camponeses e recebiam pequenas ofertas de unguento para urdir os fios e a teia dos teares. Lutando contra a aleivosia dos senhores que feudalizavam o comércio, o trânsito das tapeçarias e outras coisas mais, os operários da tecelagem elaboravam longamente essa preciosidade e negociavam com a população a entrega de cada peça a outros senhores dedicados às artes e à beleza dos ornatos.
ROCHA DESENHAMENTO

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humanos e divinos atributos

os deuses detém atributos que nós humanos nem sonhamos. a infinitude é talvez o mais difícil de apreender mesmo que o misticismo faça parte de nós. segunda pele. pão, preciosidade. filosofia de vida. a comiseração é, no entanto, algo que está ao nosso alcance embora nunca com a dimensão divina, pois a aleivosia em nós encontra amplo campo de desenvolvimento para no silêncio urdir a destruição e não há unguento nem mágicas mãos que a consigam erradicar. nem o isolamento meditativo no mais recôndito eremitério no pico da montanha recoberto de gelado e belo sincelo a pode extirpar completamente.
Eremita

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mea culpa

César admira o sincelo que a geada urdiu nos ramos das árvores. uma pequena aleivosia do clima, numa invernosa manhã de Primavera, na infinitude do seu eremitério. uma preciosidade da Natureza na comiseração do silêncio. com as mãos aquecidas pelo pão acabado de cozer (unguento de calor) César sorri do misticismo e dá graças.
ana Eugénio

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Como era de costume o poeta avisou:
- Hoje visitarei minhas doze palavras-odaliscas, preparem-se.

O poeta chegou no quarto e começou a acariciar os baixos de suas palavras:

Comiseração
Eremitério
Mãos

Misticismo
Pão

Preciosidade
Sincelo
Unguento

Urdir

Todas tremeram, gozosas.

O poeta percebeu a falta de suas mais preciosas palavras-odaliscas.

Silêncio
Infinitude

Fugiram - revelaram as outras palavras – Saíram dizendo que a mão do poeta não é digna para lhes tocar os baixos, para quebrar-lhes a virgindade.

Desde então, o poeta barulha lágrimas, grita misérias nas janelas do palácio.
Até onde se sabe, silêncio e infinitude jamais retornaram para as mãos cada vez menos dignas do poeta.
Rubens da Cunha

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a batalha maior

havia algum tempo que estranhos pensamentos se infiltravam. primeiro no sono. os sonhos fugindo ao seu controlo. trazendo despojos de pensamentos que sempre rejeitara. mais tarde, ao longo do dia. com aleivosia. apanhando-o desprevenido. inquinando-o.

hoje acordara no silêncio da madrugada com uma sensação incomum. uma intensa comiseração tomara-o de assalto. vinham-lhe ao pensamento os sem-abrigo - com que sempre se cruzava no regresso ao confortável andar num condomínio de luxo. fechado castelo de senhor feudal – os trabalhadores por conta de outrem endividados. no banco expondo razões – tantas tão válidas afinal - pedindo-lhe possíveis renegociações comportáveis com os seus parcos rendimentos face ao desequilíbrio provocado pelo agravamento do custo de vida – e, contra o usual, um sentimento de dor tomava-o.

sempre detestara emoções que a mãe denominava de “humanas”. O rosto da nossa humanidade dizia ela: caridade; empatia; solidariedade; compaixão….sim, pensava de si para si. tudo isso é muito bonito desde que daí me advenham benefícios. lucros. vantagens sob alguma forma….

o misticismo da mãe bulia-lhe com o sistema nervoso. considerava-o fragilidade de espírito. nada mais. chamasse-lhe ela o que quisesse.

as longas histórias que, em criança, lhe contava de quando partira para a Índia em busca de desenvolvimento espiritual – a maior preciosidade de qualquer ser humano. de como encontrara um guru e como passado alguns meses partira para as montanhas - com a roupa do corpo, uma velha manta, um púcaro, um tacho e uns bocados de pão - e se isolara durante mais de um ano num eremitério que nada mais era do que uma pequena caverna em que nem de pé cabia…
falava-lhe da importância das mãos – instrumentos de trabalho e sobrevivência – de como elas urdiam roupa com plantas que colhia na montanha e assim se protegia de morrer congelada, de como ganhavam vida própria e com ervas e flores que colhiam amassavam unguentos com que massajavam o dorido corpo. de como, com suavidade e gratidão, arrancavam pedaços de gelo ao sincelo que durante mais de meio ano emoldurava a entrada da caverna, quase a fechando por vezes, e assim sempre tinha a vital e pura água - de oração e prece, de agradecimento, e ainda universais símbolos de paz e fraternidade.

e as histórias e conselhos da mãe, que antes ouvia como fantasias ou delírios de um espírito frágil, dominavam-no com uma realidade que nada do que sempre fora importante para ele detinha agora.

reuniu a direcção do banco e passou a presidência alegando razões pessoais - de vida ou morte.
pensaram-no atacado por doença mortal, mas ninguém ousou inquirir. sabia que assim seria. nunca lhes dera espaço para qualquer intimidade. por mais banal.

a ânsia de ver, de viver na infinitude branca e silenciosa de que a mãe lhe falara e de
se encontrar, ganhara finalmente a batalha.
TMara

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secreto refúgio

no profundo misticismo do ser e da infinitude que nos escapa, cada um empenha-se em urdir seu secreto refúgio. Eremitério. espaço de silêncio. preciosidadepão para a alma. suave unguento que com amor e comiseração sara as feridas de toda a aleivosia que pérfidas mãos atiram como dardos ou setas de gelo roubada a beleza ao sincelo caindo dos beirais.
Dark

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das tramas e aleivosas urdições

é no silêncio e nas trevas que, sem comiseração, os seres imaginam e praticam uma infinitude de aleivosias contra terceiros.

com uma espécie de misticismo dedicam-se a urdir, tramas, intrigas, falsos testemunhos, traições… um sem número de malfeitos de onde, por norma, saem de mãos limpas. "preciosidades" sociais intocáveis, como santos homens num eremitério ungidos por divino unguento criadores de trabalho, dizem… Pão que alimenta muitas bocas…

mas sobre eles sopram gélidos ventos das fornalhas do mal que os cobrem de agressivas e rubras chamas destruidoras. nunca do suave e belo sincelo que tantas vezes cobre o mundo com um branco manto de paz.
Amla

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Eremitério

Não me fales tu de aleivosia
comiseração ou misticismo
unguento
,
porque as minhas mãos
na infinitude de urdir
são pão, preciosidade
e o sincelo silêncio
do teu eremitério!
Paula Raposo


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MAIS LOGO

Olha para trás, mais uma vez, para ver o eremitério, lindo naquele dia em que o sol batendo no sincelo o fazia brilhar qual diamante, decompondo a luz em arco-íris que a maravilhava, lindo naquele silêncio tão puro quanto um manto de neve, lindo naquela infinitude paisagística onde o olhar se alargara e se habituara a ver sempre mais longe, lindo no misticismo que o envolvia e que se projectava agora nela. Quando o sentiu, sacudiu-se instintivamente enquanto pensava, que não já, que não agora, porque ainda tinha algo para fazer, antes de o poder assumir por completo.
Fora para ali que a tinha levado, cheio de comiseração, quando a encontrou meia-morta, tão maltratada. Fora ali que tinha cuidado dela, com um unguento feito de ervas apanhadas por mãos sábias, com gestos mil vezes repetidos, que as juntara, moera, misturara com óleos essenciais transformando-o, qual alquimista, naquela preciosidade de cura. Fora ali que lhe dera o primeiro pão quando já conseguia mastigar.
Estava agora de partida para um mundo de aleivosia, onde alguém tinha querido urdir a armadilha que lhe fora quase fatal. Tremia ainda de medo quando se lembrava do que lhe tinham feito, mas sabia, apesar do que o ermitão tantas vezes lhe dissera, que partia para se vingar.
Mais logo resolveria a sua vida.
Claras Manhãs


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À GUISA DE CARTA


Prezado Eremita,

Confesso que, ao receber a lista de palavras para o 8º Jogo das 12 Palavras, dado o pouco uso de algumas na linguagem corrente dos nossos dias, pensei se estaria a viver noutra época. Vieram-me então à cabeça vários livros de escritores de séculos idos, e de tal maneira a ideia se impôs que cheguei ao ponto de me imaginar vestida com a indumentária desses tempos. Pelo sim pelo não, procurei um espelho que me mostrasse de alto a baixo e constatei que o meu aspecto era o de uma mulher do ano 2008 da era cristã. Afinal aquela fantasia nada mais tinha sido do que uma reacção primária relacionada com a minha preocupação em responder de forma adequada a este desafio de escrever textos com doze palavras obrigatórias sugeridas por outros. Tarefa difícil, pelo menos para mim. Como resolver o problema? Tomei por isso a ousadia de o pôr ao corrente do meu embaraço perante o repto que nos é feito esta semana.
Numa época em que até se comunica através de palavras mutiladas pelos dedos de mãos apressadas em manejar mensagens por telemóveis, e em que vocábulos antigos foram completamente esquecidos, suponho que o meu amigo compreenderá a minha dificuldade em escrever um texto ajustado à proposta. Que não nego poderá vir a ser muito enriquecedor para quem nos ler e assim, consoante a idade, recordará tempos de linguagem requintada, ou, no caso dos mais jovens, os levará, pelo menos e se curiosos, a manusear o dicionário. Confesso, contudo, que tenho algumas dúvidas, e imagino certos obstáculos, quanto à aplicação dessas palavras na vida actual e trivial de todos nós. Dir-me-á que uma língua se constrói na sua utilização. Claro que sim, mas também por isso mesmo, dou-lhe um exemplo que me parece elucidativo. Imagine o que seria encontrar-me eu num autocarro e, já farta de ouvir uma daquelas discussões alimentadas por inflamadas difamações que por vezes animam essas viagens, tentar apaziguar os contendores e dizer‑lhes: Deixem-se dessa aleivosia, meus senhores! De certo olhariam para mim estupefactos e diriam: Olha esta! O que é que você está a insinuar? Penso que, no aceso da disputa verbal, e do gesto esboçado, não seria avisado da minha parte explicar-lhes que é de mau tom urdir calúnias e o melhor seria remeter-me à minha insignificância, não resistindo, no entanto, a aconselhar-lhes: Não percam tempo com ninharias, que ele é uma preciosidade a resguardar nas nossas vidas. (Julgo que, pelo menos, ninharias lhes seria familiar, pois que delas temos o mundo cheio…) Depois sairia do autocarro, deixando atrás de mim, estampado nos rostos dos passageiros, o silêncio da comiseração (não sei se por mim se pelos outros) e do cansaço dos dias em busca do pão que alimenta os estômagos famintos.
Bem, mas prosseguindo na explanação das minhas dificuldades em corresponder ao seu pedido, e porque me parece a propósito, lembro-lhe que esta vida urbana é completamente diferente da que goza no seu eremitério. Aqui, a efervescência devora-nos e poucas horas sobram para o misticismo e para a reflexão filosófica sobre o que quer que seja, como por exemplo o conceito de infinitude. Aqui desejam-se soluções imediatas, aplicadas ao dia-a-dia, como uma espécie de unguento eficaz que se procura para a travessia das rotinas e das dores do corpo que transbordam para a pele ou se embebem na alma. O senhor é que tem o privilégio de poder sentar-se pela manhã à beira do seu pensamento e enriquecer os seus dias com o olhar demorado no sincelo dos beirais dos telhados. Na cidade nem de beirais damos conta, que raramente os há. Temos elevadores em prédios altos e, quando viramos a cabeça para cima à procura de qualquer coisa que nos afaste da realidade que nos consome, vemos o céu à distância. O que apesar de tudo não é mau, porque o céu pode ser um telhado.
Espero, prezado amigo, que não interprete mal a minha carta e que a tome apenas como um desabafo. Sendo o senhor um eremita habituado à reflexão, presumo saberá avaliar melhor do que ninguém as apreensões de uma citadina do século 21.
M


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A Fuga

Pousei na balaustrada do eremitério,
olhei o sincelo chorando de comiseração
pelas mulheres, pelos homens, pelas crianças,
pelas mãos sem labor, sem unguento de fé,
correndo sem tino, as bocas sem pão;
raízes sem chão na infinitude da terra,
espoliados pela aleivosia dos homens.

Nem há misticismo a urdir a esperança,
quebrada a preciosidade do silêncio
na Terra-Mãe.
Miruíi


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Soam no eremitério as vozes do silêncio que mana
das mãos erguidas tocando o peito e o rosto
em prece à infinitude do amor.

Nem só o pão, unguento do corpo,
nem só o misticismo, refúgio da alma,
tão pouco o sincelo derramado pelos beirais,
disfarçam a aleivosia duma sociedade
a urdir o percurso do Homem.

Nela, a comiseração não chega,
só a razão se mantém preciosidade.
Jawaa

8º Jogo das 12 Palavras - 2ª parte



As tuas mãos

E sempre as tuas mãos. Sacrário de silêncio onde celebrava o misticismo do amor. unguento sobre a pele. Pelo toque me davas o pão do teu corpo. A água que o sincelo da minha alma gerava, matava-me a sede. Naquele eremitério feito de horas isoladas procurávamos a infinitude improvável. Precisávamos urdir uma rede fina, preciosidade de protecção contra a auto comiseração e a aleivosia dos outros. Talvez a malha fosse larga demais. Por ela fugiu tudo o que ritualizava o amor e, por fim, até as tuas mãos.
Vida de Vidro

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Místico

A infinitude do silêncio colava-se-lhe ao corpo. Caminhava lento, passando as mãos nas formas que o sincelo conseguia urdir nas árvores. A casa era mais um eremitério onde a única preciosidade vinha da luz que entrava a qualquer hora. Havia nele uma aura de misticismo que, no princípio, os outros veneravam. Tocavam-lhe como se lhes pudesse dar o pão da vida. Ou como se dele jorrasse unguento para as dores da alma. Comprovado que não fazia milagres, passaram a olhá-lo com comiseração. Por fim, devia ofendê-los pela diferença, tal a aleivosia com que, em cada dia, o humilhavam. Quando partiu, as árvores choraram, em cada jóia de gelo derretida.
Vida de Vidro

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Maldita droga!

Os pássaros grandes, quando intentam urdir um ninheiro, não têm comiseração de qualquer espécie.
Maldita droga!

Tenho tanta pena de não te conseguir dar a mão!
Tenho tanta pena de que a droga seja o teu pão!
Tenho tanta pena de que, quando te ia conseguindo a recuperação, a tua mãe não tenha permitido, dizendo que não ia deixar o filho recluso num eremitério, sem poder ter a família por perto. No entanto, agora que a começaste a odiar, lavou de ti as mãos!
Essa aleivosia empurrou-te para as ruínas da cidade, onde te perdes numa infinitude de delinquência e miséria.

Lembras-te Tó, quando eras ainda um miúdo no último ano da catequese, e no grupo te indagámos se era verdade que fumavas charros?
Nem sequer te remeteste ao silêncio. Negaste. E soubeste tão bem negar, com um tão grande misticismo que todos fingimos acreditar. Mas fiquei de olho em ti.
O teu pai chegou a falar-me da tua inteligência como uma enorme preciosidade. E eu sei que assim era. Mas começaste a fumar cada vez mais e foste enredado totalmente nas malhas dessa teia impiedosa.

Quando ainda estarias a tempo, sabes bem como demos os passos necessários a que mudasses de ares, para te libertares desse vício assassino… mas à última hora, foste levado a não sair de casa. Mais tarde, outros te tentaram ajudar e te conseguiram internar. Mas, esse sincelo que se despenhou e se espetou em ti, já estava por demais enterrado que nunca mais te abandonou.

Tenho tanta pena de não conseguir encontrar o unguento eficaz que te cure as feridas, para que ganhes o ânimo necessário a te libertares desse reino dos mortos vivos!
Maldita droga!
Fa menor
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PALAVRAS DIFICEIS

Na minha instrução primária havia um Caderno Alfabetado que servia para anotarmos “Palavras Difíceis”. Se ainda o tivesse entre mãos iria, certamente, escrever a preciosidade deste vocábulo “infinitude”; pois procurei no meu velho dicionário de Francisco Torrinha e não encontrei, assim como, na 8ª edição revista e actualizada do Dicionário de Português da Porto Editora.

Como não pretendo sujeitar-me à comiseração dos meus companheiros deste jogo, vou fazer o meu melhor e tentar urdir qualquer coisa que me agrade escrever e que satisfaça minimamente qualquer amável leitor destas aventuras.

Assim, retirar-me-ei para o meu eremitério habitual acompanhada apenas por lápis e papel, um copo de água e um simples naco de pão com que alimentarei os neurónios e mergulharei, então, no silêncio necessário para levar a bom termo este desafio.

Mesmo sem o misticismo habitual a que me entrego, quando é necessário redigir obras importantes, penso não ser alvo das aleivosias de alguns comentadores e, certamente, atingirei o objectivo pretendido, antes de ver os sincelos nas casas da minha rua que, normalmente, se formam nesta altura do ano.

Apenas e só a música servirá de unguento para o desânimo que a alma vai sentir quando acabar o texto e, relendo-o, me invadir a vontade de o inutilizar.
Atelier da Benó
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ENTRE AMIGAS

O silêncio que o misticismo de Clara impusera no eremitério era tão necessário como o pão para a boca.
A aleivosia de que fora alvo, sem qualquer comiseração, pela Joana, sua amiga de infância, trouxera-lhe uma tristeza profunda e, de mãos postas, pedira que a deixassem isolada pois, só assim iria conseguir o unguento necessário para aliviar tão grande dôr.
Nesse retiro, entregue à meditação, iria urdir a melhor maneira de perdoar e na infinitude do tempo, constatar que a preciosidade da vida é composta de coisas boas e menos boas, amores e desamores, sorrisos e lágrimas, muitos prós e alguns contras, e que a amizade entre ela e a Joana, ao contrário dos frágeis sincelos que no Inverno ornavam os telhados da sua aldeia, era suficientemente forte para vencer aquela pequena tempestade que abalara o sentimento que as unia.
 Jardim d'abrolhos
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ADEUS

Chovem amanheceres sobre a planície da tua aleivosia


Vejo-te
Através das minhas lágrimas
Tornadas sincelos,
Antes neblina envolvente
Do bosque cálido,
Quando éramos tudo,
E a alba rosada nos matizava.

Dói todo o silêncio.
Tudo o que suscito em ti
É comieração
A ponto de exilar as mãos,
Aprisionando-as no eremitério da minha face.
Rolam soluços impiedosos,
Aprimorando a arte de pintar sombras.
Atiçam labaredas,
Queimando a infinitude dos sonhos.

Grácil o misticismo que nos circundava,
Quando éramos tanto.
Éramos beijo,
Éramos abraço,
Éramos dar de mãos,
As que agora jazem abandonadas,
Famintas do pão
Feito daquele urdir de pétalas de flor de estrela
Que das estrelas chovia,
Dourado,
Que davam às divindades da nossa floresta,
Para que nos celebrássemos.

Olho-te ainda uma vez,
Vejo-te através das lágrimas,
Outrora rio onde nos refrescávamos,
Unguento que nos protegia,
Que tão delicadamente,
Espalhávamos na pele daquele desejo bom
De nos vermos continuar,
Após breve paragem,
Pelas margens dum tão bem nos querermos…

Tudo vai ruindo...

Vou deixando cair
Povoados de tristeza,
Sobre a preciosidade que houvéramos,
Sobre um coração.
Vejo ainda arder as mágoas
Com os meus olhos
Cristais estilhaçados,
Antes caleidoscópios
Quando te olhava,
Te via,
Multicolor de gestos,
E a noite vinha,
Prenhe de oferendas,
De leitos cálidos
Onde repousávamos instantes,
Quando nos pensávamos…

Fica a vida,
E…
Parto eu…
Cris
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Quando olho para o lado e o tempo pára por segundos, observo a janela e imagino aquele frio saudoso que me prende a cada sincelo, em cada ramo como se de silêncio se tratasse. Na mesa, há pão quente, escondido da fome denominada aleivosia. A minha imaginação alimenta aquele sonho por uns segundos e quase sinto um toque no momento em que ergo as mãos para descrever o momento. A comiseração não fará parte de testemunhos reais, mas antes a obra. O misticismo eleva-se entre a preciosidade do que não se pode possuir e a infinitude do unguento. Urdir não faz parte do meu vocabulário, nem tampouco saberei identificar com clareza o misticismo dos demónios que roubaram as almas poéticas. Vou até ao Eremitério sentar-me um pouco para que não me calem com espadas e sangue. Assim, poderei travar batalhar e erradicar sofrimentos… pequenos, mas existenciais.
Eli
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FEITICEIRITA

Feiticeirita chamava-lhe ele com ternura, sempre que a via correr de braços abertos ao seu encontro, admirando a cada dia que passava a sua beleza.
Cresceu a ouvir aquela voz meiga que ondulava em mar de amor, para dizer a palavra "feiticeirita" e ela habituou-se a pensar que o mundo era como ele, apesar de encontrar outros que assim não eram, julgando que seriam uma excepção.
A sua morte apanhou-a no fim da adolescência, muito perto dos dezoito anos. Viveu o desgosto em silêncio, como é próprio da dor profunda, mãos nuas, vazias de afectos, esperou pelos 18 anos para partir a correr mundo.
Ia trabalhando aqui e ali, qualquer coisa lhe servia, para conseguir comer o pão de todos os dias, mas assim que juntava algum dinheiro, partia mais uma vez, não criando raízes em lado nenhum.
Perdeu-se na Índia, tão carregada de misticismo
perdeu-se na infinitude de caminhos que encontrou e na dificuldade de fazer opções, perdeu-se pelo homem que foi o seu primeiro amor.
Viveu esse amor, como tinha vivido a dor da perda, intensamente, como se finalmente tivesse entre as mãos a maior preciosidade, sem olhar em redor, sem querer saber de mais nada. Ele sentiu-se o rei daquela ingenuidade, de completa entrega, começando a urdir um esquema em que pudesse tirar proveito da sua beleza. Quando percebeu o que queria que fizesse, a aleivosia que urdira, partiu desfeita, em direcção às montanhas, passando a acreditar que todos eram iguais, que jamais acreditaria em alguém.
Comia o que lhe davam pelos caminhos por onde andava mendigando, magra, cabelos desgrenhados, era olhada com comiseração por todos que se apercebiam, pelas vestes esfarrapadas e sujas, ser uma estrangeira que não estava associada a nenhum templo.
Feiticeirita andou durante quase dois anos, sem saber o que procurava, só tentando esquecer aquele amor que lhe levara toda a alegria de viver. O caminho traz muitas vezes o esquecimento, ou pelo menos o adormecimento da dor, é um unguento eficaz para a alma.
Naquela manhã quando acordou o sol ia alto e quando olhou para o cimo da montanha viu o que lhe pareceu um sonho, um pequeno templo cujo sincelo brilhava à luz do sol e à ideia veio-lhe a noção que tinha de eremitério. Subiu esperando que pudessem admitir mulheres, era ali que queria ficar, era ali que precisava de ficar.
Ficou durante alguns anos, aprendendo a esquecer, aprendendo a abrir o coração e a alma, aprendendo a respirar o silêncio, para mais tarde já resplandecente, descer a montanha e continuar o seu caminho de Feiticeira.
Claras Manhãs

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A breve visita do meu amigo irlandês

O meu amigo irlandês veio visitar-me. Não só por saudade, disse ele, mas quase por uma questão de sobrevivência. Cansado do seu eremitério, onde vivia num misticismo de silêncio e comunhão com a natureza, precisava com urgência de um pouco da luz e da suavidade do sul para poder enfrentar um Inverno que se adivinhava feroz, pois mal começara já enfeitava todas as noites os beirais com longos sincelos, que pela manhã brilhavam como brincos de cristal. O sol e a luz do sul, sublinhava, seriam um unguento apaziguador para as suas mãos doridas, para o corpo envelhecido e para a alma cheia de nódoas negras.
E (continuando a esclarecer-me com gravidade e graça) para que a terapêutica fosse completa, precisava também dos cheiros que no norte lhe faltavam: o cheiro do pão quente, o odor da lenha a queimar devagar, a precosidade perfumada de um campo de urze e alfazema coberto por nevoeiros leves.
“There is an infinitude of reasons for one to be happy in your country…”.
Teria sido aleivosia minha não lhe aceitar a infinidade de razões. Embora, conhecendo bem a sua fina ironia, eu vacilasse entre a comiseração pela sua possível fragilidade física e a quase certeza de que se tratava de efabulação sua por motivos indecifráveis. Na dúvida, e sorrindo, limitei-me a urdir à sua volta um casulo de ternura e amizade, e a recebê-lo de braços abertos.
Por cá ficou vários anos…
Justine

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Com a aleivosia que lhe é característica e sem comiseração pelo leitor, mete mãos á obra e começa a urdir o texto no silêncio...
Olha demoradamente o sincelo rendilhado que rebrilha ao sol, dependurado nos beirais e nas árvores do quintal.
Atira aos pássaros as últimas migalhas de pão como se de uma preciosidade se tratasse e bebe mais um gole de chá fumegante..
Embrenha-se no misticismo da escrita, unguento para a solidão que por vezes se faz sentir no eremitério numa infinitude só possível naquele lugar mágico..
Acerca-se da lareira e delicia-se com o crepitar do fogo.. Dali não sairá..Porque ali, tem tudo o que o faz feliz...
Ell