porque não há longe nem distância... estou mais perto do azul e da luz_____________esta mostra-me coisas que não via _________a vida, viagem cheia de apeadeiros caminhos e atalhos___vivo ___________deixo que a consciência se torne UNA.
FEITICEIRITAFeiticeirita chamava-lhe ele com ternura, sempre que a via correr de braços abertos ao seu encontro, admirando a cada dia que passava a sua beleza.Cresceu a ouvir aquela voz meiga que ondulava em mar de amor, para dizer a palavra "feiticeirita" e ela habituou-se a pensar que o mundo era como ele, apesar de encontrar outros que assim não eram, julgando que seriam uma excepção.A sua morte apanhou-a no fim da adolescência, muito perto dos dezoito anos. Viveu o desgosto em silêncio, como é próprio da dor profunda, mãos nuas, vazias de afectos, esperou pelos 18 anos para partir a correr mundo.Ia trabalhando aqui e ali, qualquer coisa lhe servia, para conseguir comer o pão de todos os dias, mas assim que juntava algum dinheiro, partia mais uma vez, não criando raízes em lado nenhum.Perdeu-se na Índia, tão carregada de misticismoperdeu-se na infinitude de caminhos que encontrou e na dificuldade de fazer opções, perdeu-se pelo homem que foi o seu primeiro amor.Viveu esse amor, como tinha vivido a dor da perda, intensamente, como se finalmente tivesse entre as mãos a maior preciosidade, sem olhar em redor, sem querer saber de mais nada. Ele sentiu-se o rei daquela ingenuidade, de completa entrega, começando a urdir um esquema em que pudesse tirar proveito da sua beleza. Quando percebeu o que queria que fizesse, a aleivosia que urdira, partiu desfeita, em direcção às montanhas, passando a acreditar que todos eram iguais, que jamais acreditaria em alguém.Comia o que lhe davam pelos caminhos por onde andava mendigando, magra, cabelos desgrenhados, era olhada com comiseração por todos que se apercebiam, pelas vestes esfarrapadas e sujas, ser uma estrangeira que não estava associada a nenhum templo.Feiticeirita andou durante quase dois anos, sem saber o que procurava, só tentando esquecer aquele amor que lhe levara toda a alegria de viver. O caminho traz muitas vezes o esquecimento, ou pelo menos o adormecimento da dor, é um unguento eficaz para a alma.Naquela manhã quando acordou o sol ia alto e quando olhou para o cimo da montanha viu o que lhe pareceu um sonho, um pequeno templo cujo sincelo brilhava à luz do sol e à ideia veio-lhe a noção que tinha de eremitério. Subiu esperando que pudessem admitir mulheres, era ali que queria ficar, era ali que precisava de ficar.Ficou durante alguns anos, aprendendo a esquecer, aprendendo a abrir o coração e a alma, aprendendo a respirar o silêncio, para mais tarde já resplandecente, descer a montanha e continuar o seu caminho de Feiticeira.Claras Manhãs
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A breve visita do meu amigo irlandêsO meu amigo irlandês veio visitar-me. Não só por saudade, disse ele, mas quase por uma questão de sobrevivência. Cansado do seu eremitério, onde vivia num misticismo de silêncio e comunhão com a natureza, precisava com urgência de um pouco da luz e da suavidade do sul para poder enfrentar um Inverno que se adivinhava feroz, pois mal começara já enfeitava todas as noites os beirais com longos sincelos, que pela manhã brilhavam como brincos de cristal. O sol e a luz do sul, sublinhava, seriam um unguento apaziguador para as suas mãos doridas, para o corpo envelhecido e para a alma cheia de nódoas negras.E (continuando a esclarecer-me com gravidade e graça) para que a terapêutica fosse completa, precisava também dos cheiros que no norte lhe faltavam: o cheiro do pão quente, o odor da lenha a queimar devagar, a precosidade perfumada de um campo de urze e alfazema coberto por nevoeiros leves.“There is an infinitude of reasons for one to be happy in your country…”.Teria sido aleivosia minha não lhe aceitar a infinidade de razões. Embora, conhecendo bem a sua fina ironia, eu vacilasse entre a comiseração pela sua possível fragilidade física e a quase certeza de que se tratava de efabulação sua por motivos indecifráveis. Na dúvida, e sorrindo, limitei-me a urdir à sua volta um casulo de ternura e amizade, e a recebê-lo de braços abertos.Por cá ficou vários anos…Justine
Somos uns valentes por conseguir responder a este desafio mensal. Estamos todos de parabéns, penso eu, por sermos tão criativos.
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1 comentário:
Somos uns valentes por conseguir responder a este desafio mensal. Estamos todos de parabéns, penso eu, por sermos tão criativos.
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