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terça-feira, dezembro 09, 2008

A morte absoluta


Morrer.
Morrer de corpo e de alma.
Completamente.

Morrer sem deixar o triste despojo da carne,
A exangue máscara de cera,
Cercada de flores,
Que apodrecerão — felizes! — num dia,
Banhada de lágrimas
Nascidas menos da saudade do que do espanto da morte.

Morrer sem deixar porventura uma alma errante...
A caminho do céu?
Mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu?

Morrer sem deixar um sulco, um risco, uma sombra,
A lembrança de uma sombra
Em nenhum coração, em nenhum pensamento,
Em nenhuma epiderme.

Morrer tão completamente
Que um dia ao lerem o teu nome num papel
Perguntem: "Quem foi?..."

Morrer mais completamente ainda,
— Sem deixar sequer esse nome.



Manuel Bandeira

sábado, novembro 08, 2008

domingo, março 18, 2007

poema de José Gomes Ferreira


XII


(Tanta gente que eu matei assim!)

A sombra enforcou naquele candeeiro
o homem que eu imagino
para ali a dançar o nevoeiro
do seu destino.

Que fácil matar assim!
Nem lhe falta o corvo
num halo
de carícia
- a devorá-lo
dentro de mim...

(Cuidado! Um polícia.
Vou ressuscitá-lo.)

In:POETA MILITANTE, 2 Vol. Lisboa: MORAES EDITORA (1977) - RUAS DESERTAS(79:80)