Tempestade, teus desígnios desmancham o céu, desfazem o azul: esse farol da fé. Tempestade, vem comungar comigo! Deixa teu alto distanciamento para os fortes, sou fraco e erodido. Sabe o mar, tempestade? Aquele mar que, quando acariciado por ti, torna-se avassalador, pois é... eu queria ser a fusão dele com teus carinhos, e tornar-me imenso, não ter mais a vida amortecida pelos medos que sempre fizeram-me um nascedouro de nadas.
Rubens da Cunha
DISTANCIAMENTO
Quisera eu matar o tempo,
Quisera eu pintar o espaço
Criar uma fusão de céu e mar
Para tornar azul a cor sangrenta
Com que marcas em mim a tua ausência.
*
II.
Quisera eu pintar no espaço imenso
O avassalador tremor desse momento
Em que todas as cores do arco-íris
Se fundem na minha alma amortecida
Pela dor do teu distanciamento.
*
III.
Como farol alerta em mar de tempestade
Meu coração anseia estar contigo
Comungar do teu corpo,
Pois a alma, já a dei
Em desalento desabrido
*
IV.
Mas fechas os portões da tua alma
Nada é alcançável no teu peito
Feito de rocha de um solo erodido
Que o espaço não coloriu
E que no tempo morre, sem abrigo.
Maria

E dera-se uma implosão mas ninguém poderia escutá-la ou percebê-la.
Eu saía de uma tempestade de décadas e pouco parecia ter sobrevivido intacto. O que fora fusão transformara-se em fragmentos flutuando dispersos. Pensamentos, membros, sonhos, alma, coração, neurónios, artérias, cabelos e esperanças, baloiçavam num céu inicialmente de um azul glaciar. E este não se atrevia a murmurar e o ruído do vento também fugira como uma criança assustada não querendo dar respostas. ´
E foi então que a minha alma caiu no mar imenso e frio, amortecida por um ondular suave, repetitivo. E, para meu espanto, todos os fragmentos do meu eu rodopiaram até se encontrarem com o oceano, onde as ondas tentavam cumprir o seu futuro, comungar de mansinho com a areia húmida.
Mas ainda me sentia erodido. Havia um distanciamento avassalador
entre a minha alma e tudo que fazia com que eu fosse realmente eu. Por isso, assim que atingia a areia disfarçava-me de pequenas conchas.
E depois fiz-me cantilena e um menino foi irresistivelmente atraído para a beira-mar pela melodia suave que enfrentava o emudecimento do vento. Conchas e conchas opalinas clamavam por ele. Sem ele, eu não seria nada. Precisava dele como a embarcação precisa do farol nas noites sem luar. Precisava das suas mãos pequenas para que estas me recolhessem e depois ao brincar com a areia, a enfeitassem de mim.
No final da tarde o menino acabara um imponente castelo de areia, salpicado por conchas.
Levantou-se. E o vento ouviu-se de novo e desceu até ao castelo de areia. E das conchas ressurgi.
E antes de voltar a caminhar, quedei-me a observar um ponto longínquo. Um menino de mãos dadas aos seus pais, dizendo-me adeus.
Raquel Vasconcelos
XVIIEXCITAÇÃO
corpo amortecido
tecido na pele
um sentimento avassalador
a jato
deixando um rastro de fumaça no céu da boca
alguma coisa a revelar
e a comungar ao mundo
um segredo
ou ao mesmo tempo um
distanciamento
que causa medo
estampado no azul
do mesmo céu
enroscado
acabado
erodido
raspado
por línguas acesas
como um farol ao longe
com luzes intensas
brilhantes
uma fusão de sentimentos e coisas
- imenso turbilhão -
como num mar revolto
no meio
da tempestade
da pele
julio carvalho
Mac

Na busca de um farol
No céu nem uma única nuvem perturba a paz deste sol resplandecente.
Percorro o imenso areal, ao mesmo tempo que tomo consciência do paradoxo que me envolve: a calma do azul celeste e a tempestade que me invade a alma, qual oceano enfurecido.
Esta fusão, visual e psicológica, de céu e mar, provoca em mim uma tal ânsia de infinito, que me deixo cair amortecida, também pelo sol avassalador, até que o meu mar interior se vai lentamente transformando num erodido grão de areia.
Resta-me comungar do espaço físico que me envolve.
Deixo-me ficar caída na praia, ouvindo o ruído das ondas, até sentir todo o distanciamento necessário a me encontrar.
Aos poucos, vou procurando vislumbrar o Farol que me guiará!
Fa menor

Na Tempestade...
Nos passos errantes
No meio da tempestade
Sob o mar avassalador...
Perco-me de mim
No meio do medo
No frágil barco,
Sinto-me amortecida
Enquanto procuro
o distanciamento de mim
Paro e escuto...
O meu sentido erodido
mas...que me acalma
Na fusão inequívoca
Do medo e da esperança,
Vejo a luz do farol
Que me guiará!
E enquanto
Fecho e volto a abrir os olhos
Vejo a tempestade que partiu
E sinto-me comungar
Do imenso céu azul
Que se abre
E o mar que se acalma
Sob o doce e sereno sorriso
Do sol que me perfuma!
elsa nyny
XXI
onde a luz?
tinha os olhos de um azul céu ou, em turbulentos dias, cor do mar em avassaladora tempestade criando, quando assim nos fitava, impossível e imenso distânciamento, mas na serenidade do ser, olhando-nos olhos nos olhos uma intensa luz de farol cintilava, iluminando-nos, arrastando-nos para a luz que irradiava, num intenso desejo de com ela comungar sentimento e vida em unidade e total fusão.
agora fito seu amortecido e erodido olhar.
onde a luz?
TMara
Retrato de cidade
A cidade surge-nos ao longe, imenso e plácido mar de ruelas emaranhadas em tons ocre e volumetria homogénea, amortecida à distância pela leve neblina que sobe do rio, a essa hora azul por espelhar sem constrangimentos o céu transparente e doce.
O distanciamento porém ilude-nos. A cidade, à medida que nos aproximamos, revela um labiríntico sobe-e-desce de ruas, esquinas, passagens, praças e becos, tecido arquitectónico de traça medieval erodido pelo tempo. A quebrar a mansidão da planície urbana sobressai, majestosa e vigilante, a torre alta da catedral, farol místico que derrama sobre a cidade a insinuação de uma religiosidade ecléctica. Porque esta função já terá sido desempenhada, em tempos outros, por minaretes e cúpulas sefarditas.
Fusão de trevas e luz, berço antigo de diversas e divergentes culturas, a cidade convida-nos a comungar da esperança de que a tolerância pode ser um sentimento ecuménico.
E ao sairmos, fica no ar, perfumado de jasmim, o sinal de uma promessa de paz. Que nós guardamos como possível, apesar dos homens, levianos, nos apregoarem tempestade.
Espaço-Cidade – território de emoções, avassalador e terno.
Justine
XXIII
Tibete amordaçado
Muito antes do tempo que hoje é nosso,
as naus fizeram-se ao largo, temerárias,
à descoberta de caminhos desiguais,
iluminados pelo farol das estrelas
de um céu nem sempre forrado de azul.
Foram os tempos dos vírus, da peste
e do escorbuto, na tempestade real
de aventuras armadas à força e à vela
de fidalgos a navegar sem remorsos,
mais a cavalo que a bordo da servidão
calejada no corpo erodido de escravos.
Por toda a parte entretanto conhecida,
eis que uma nova epopeia se retoma
num corrupio ainda mais avassalador,
onde o distanciamento se condensa,
escusada a bússola de marinheiro
ou o sextante de sabido mareante,
num aviso amortecido e virtual:
"- Introduza o seu nome e a sua senha".
Frotas de todo o mundo, em liberdade,
a comungar na mesma taça repartida,
miríades de embarcações embandeiradas
num mar de qualquer cor ou qualquer raça
ao encontro destemido do saber,
ainda que haja à espreita em cada rota
um Adamastor com o vírus das tormentas.
Com espantos sempre novos, desusados,
a reinventar o fogo-de-santelmo remoçado,
é numa aldeia sem-fim, vasta e global,
que depois do protector
"- Introduza o seu nome e a sua senha".
são estivados todos os cálices sedentos
que no rio imenso do leito se abeirem
em diluviana fusão de navegantes.
"- A senha que introduziu está incorrecta.
Digite a sua senha novamente".
Mas sem ventos de feição, tudo é silenciado:
não há velas nem senhas que nos deixem navegar,
como na China tirana do Tibete amordaçado.
Nilson Barcelli
XXIV
e de suas folhas caídas.
Muito menos do Inverno
com frio, chuva,
vento e tempestade.
E mesmo a Prima Vera é só isso.
Uma prima.
Tudo pela metade.
Sou de países quentes,
sou de paixões,
sou de sol e
sou de mar
De noites abafadas e céu estrelado.
E de azul.
Um azul imenso.
Sou de céu.
Sou de mar,
Sou de sol
E dos teus olhos
que me chamam,
e me guiam,
e iluminam,
como um Farol.
Foi numa noite assim que chegaste.
E vieste
de mansinho
e me tomaste,
e me amaste,
e aquele amor que vivemos,
avassalador,
nem o tempo,
nem o distanciamento
abrandaram dele
o calor
que a fusão
dos nossos corpos
provocou,
no comungar
do extâse
apenas amortecido
no descanço
do amor vivido.
Sou de céu.
Sou de mar,
Sou de sol,
Sou de amor,
e o erodido tempo,
só fará aumentar
o seu calor.
Sou de céu.
Sou de mar,
Sou de sol,
Sou de amor.
Bluevelvet
XXV
pacheco eduardo
















