segunda-feira, janeiro 14, 2008

Novas daqui

Como puderam ver o meu “couval” - foto abaixo - parece uma mata.
Talvez valha a pena passar a ter alguns animais de criação para escoarem estes produtos.
Não sou muito carnívoro. Gosto mais de comer à base de legumes, incluo o leite e eventualmente ovos.
Não dispenso um bom queijo.
Em casa alheia sou capaz de comer carne ou peixe, mas por norma dispenso-os.
Portanto o fazer criação de algum animal – se gostasse de leite de cabra seria uma boa opção – teria como única função comer o excedente de legumes e ervas que proliferam. Talvez galinhas pois põem ovos que como….
Veremos.

O meu Kanguru funciona meio perneta ou perna de pau (?) e a opção por este foi feita já em função do conhecimento e orientações dos amigos que por cá têm habitações como sendo a rede que melhor funcionava na zona.

Assim tenho passado o tempo disponível dedicado à leitura frente à lareira.
Desculpem esta preguiça de cão ou gato. Ou de ambos. Ambos partilham comigo o gosto pela lareira. E ali ficamos os três. Eu leio, de vez em quando tomo uns apontamentos.
O cão Batalha dormita e observa-me; o “Gato”, que agora no Inverno acabei por deixar entrar, que isto não é tempo para nenhuma “alma” andar lá fora desabrigada e exposta à inclemência do tempo, como todos os gatos dorme em estado de permanente e atenta vigília e se me observa como por vezes parece, mais fortemente parece que filosofa. Sensações estranhas que estes amigos me passam, direi e digo.

Entretanto fiquei de vos falar da Laidínha.

Há que falar do início de vida dela para se compreender a pessoa que hoje é e a relação com nhora Ninhinha.
Irei assim dividir esta prosa para não ser excessiva em extensão.

1ª parte resumida da vida de Laidinha, de seu nome de baptismo Adelaide Maria Maia Salgueiro, com 38 anos de idade, frequentou a escola mas não passou do 2º ano do 1º ciclo (antiga 2ª classe)
Em bebé foi-lhe diagnosticado um “atraso”. Tal foi identificado quando na fase de desenvolvimento da fala o atraso se tornou notório, tanto mais que sendo a mais nova de sete filhos a mãe já tinha larga experiência empírica da fase de aquisição de linguagem pelas crianças, sua apropriação e uso adequado.
A partir daqui lá marcharam, na carreira, ao médico da vila que depois de exames preliminares os enviou para o antigo Maria Pia no Porto, onde Adelaide ficou internada largos meses e de onde saiu com a etiqueta de atraso mental ou, como diz o povo: “é mental”.
Frequentou a escola por pressão e acompanhamento vigilante da segurança social local, através de contactos de colegas do hospital onde tinha regulares
Consultas de acompanhamento, até que a passaram para um outro serviço adequado a casos como os dela, dos “retardados” dizem-me a mãe e nhora Nininha.
A família sempre recusou o internamento da filha em instituição adequada, no Porto e assim lá andou na escola mais perto – maneirismo – de tão longe. Mas isso já foi. É passado.
Os irmãos, como os filhos de nhora Nininha, emigraram.
Uma irmã imigrou para Lisboa onde estudou, de noite, na “escola dos adultos”, até fazer o 12º ano, já mãe de 3 filhos. Os restantes irmãos estão espalhados por essa Europa a que dizem que hoje pertencemos, mas da qual estamos, afinal, cada vez mais distantes do que logo após a total ausência, claro.
A família nunca soube lidar com a doença de Adelaide e os ralhos constantes da mãe, não do pai porque é sujeito de poucas falas e que dizem sempre assim foi, e dos irmãos que nas lides do campo não entendiam as “distracções” dela, as “ausências”, a falta de ritmo no trabalho…
Desta constante querela entre ela, mãe e irmãos, surgiu uma barreira de silêncio e de incomunicabilidade total que nunca mais souberam romper.
Adelaide vivia uma vida de refúgio, fugas, ausências pelas serranias – a família deixou de contar com ela para o cumprimento das tarefas rurais que exigiam e exigem horários certos. Passou a ser vista como um fardo que havia que carregar e por certo, se lho não disseram, ou se o não escutou ela sem eles saberem, sentia-o e cada vez mais se ausentava, quer para dentro de si, quer pelas serranias horas a fio.

10 comentários:

MARIA disse...

É outro texto magnífico, sempre na linha da sua extraordinária sensibilidade e boa escrita.
Toca-me particularmente a história de vida da sua amiguinha Adelaide. Em regra, essas pessoas quando compreendidas têm um manancial de riqueza interior e de afectos para os que lhe são próximos.
Posso baptizar o seu gatito ?
Percebi que deu nome ao cão, mas adoptou o gato sem o nomear, não foi ?
Já que ele gosta tanto de se aquecer à lareira porque não chamar-lhe " Brasa" ?
:)
Faz-me sempre bem visitá-lo.
Maria

Bichodeconta disse...

Bom, eu acho que cada vez que precisas de ir apanhar couves, lá tens de ir de escadote ehehe.. Que inveja de couves tão bonitas e que devem ser deliciosas.. Um abraço, manda dai uma couvita..

isabel mendes ferreira disse...

ler-te é um prazer!


uma "golfada" de ar puro. puríssimo.


cheira a terra.


de Pascoaes.



forte e terno abraço.


obrigada.

Sophiamar disse...

O dia está a amanhecer, a estrela d`alba acompanha-me assim como um dos cães.Este recolhe ao quarto comigo e dele sai comigo também. Gostei muito do teu post. Uma escrita sensível e eloquente de quem muito lê, à lareira e não só. Quanto à Laidinha, conheço algumas com um percurso idêntico.Acabaram por ficar com a família e nalguns casos bem mais isoladas do que se estivessem numa instituição.
Quanto à cabrinha, lá na horta, no couval, no nabal, não sei se será boa ideia. Eu ia pelas galinhas.
Beijinhosssss

bettips disse...

Galinhas, pois pode ser que te saia a "galinha dos ovos de ouro"! Brinco, pois, da extraordinária emoção esta, da tua amiga da terra e a sua história de vida.
Um amor de pessoa e sensibilidade. E tu escreves com romantismo, sabias? Pois é... os anos 60 deram-nos cá um traquejo...
Abraço amigo.
(Já te disse que invejava o cão, o gato agora adoptado, as couves, o silêncio? A força? Há tanto ruído, fraco de sentido, cá fora!)

mixtu disse...

sensibilidade

ela o sabia...

abrazo serrano

MARIA disse...

Reli o texto : lindo, como um poema.
Tem um prémio no meu blog.

Sei que existes disse...

Triste e desnecessária, essa triste vida da Adelaide... há tantas e tantas histórias semelhantes... é pena!...
Quanto à idéia de arranjares uns animais para desbastarem a tua horta, talvez seja mesmo uma boa idéia!
Beijocas grandes

un dress disse...

é quase assustador como nós, ditos normais nos aproximamos dessas ausências

dessas viagens...

nada há de louco em rejeitar esta loucura da maior parte dos aspectos da vida. assim penso.

mas as facturas...ai as facturas e a incompreensão...



abraço.beijO

un dress disse...

lembrei-me tanto de um conto de torga...de que não recordo o título...

era sobre uma mulher que se perdia( encontrava ) nos montes...