domingo, setembro 21, 2008

6º Jogo das 12 Palavras -. excepcionalmente com as 60 dos 5 Jogos que compõe o livro 22 OLHARES - parte III




O homem, perdido na planície, teve de afastar os espinhos para se proteger daquele sol avassalador beber um pouco de água do cantil, sentando-se depois, amortecido, a olhar para o azul de um céu envolvente. Sentiu-se comovido ao ver o seu pobre cão, conselheiro das esperas, capaz de comungar com ele um fio de conversa, o corpo encostado ao cotovelo, a cheirar o tecido erodido, como se cheirasse flores na fusão do luar, do mar e da manhã, entre o orvalho, o movimento das coisas e a ténue linha de vapor em volta das raízes. Ficaram os dois assim, à sombra da rocha em degrau, ele numa loucura variável de pensamentos, a sentir a sua vida e a respiração do bicho, enrolado como um casulo, uma criança, no lado de cá da morte.

Num estado de vulnerabilidade, o homem, em sobressalto, pensou no distanciamento da aldeia, na ermida a emergir, na rosácea de vidrinhos, depois, ou na silhueta de santos como numa tapeçaria, parede sem cal, caixa de esmolas um dia. A aldeia tinha sido votada ao ostracismo, diluía-se a cada tempestade, e ele, seu filho, saudoso do chocolate da infância, começara esta viagem em direcção à costa, ao farol, ao espaço imenso, com método e a companhia do cão, fugindo do lodo, dos lugares de obstrução, a sentir pena do sonho apagado, do país transformado em inferno.

Por cada marca exponente, no tempo próprio em que tudo se deixa inundar, sem nossa licença nem a vertical vontade de Deus, a dor voltava-se para Ele. Até o supremo ser tinha adquirido cada vez mais o cunho de um nefelibata, uma indiferença que gerou a escassez e a revolta, uma salvação verdadeira. E por isso, ano após ano, as gentes daquele sítio decidiram emigrar, ir para onde havia trabalho para quase todos.


E o homem disse:


«Cão, temos de partir em direcção ao sul e ao oceano.»


E pôs-se a vasculhar no saco, em busca de uma côdea de pão.


Rocha de Sousa

XXII


sonata a duas vozes

em teus olhos azul céu vejo emergir a humana vulnerabilidade. reconheço o distanciamento no olhar amortecido, quase erodido pela dor.

_ nos piores momentos foste o farol na escuridão do delírio que me possuía. foste o orvalho nas flores a evolar-se. água purificadora. suave e perfumado vapor a ligar-me ás nossas raízes

olhar de alguém que viveu o inferno da loucura e da morte encerrado em hermética caixa, envolvente casulo de lodo gerando avassalador ostracismo e obstrução à vida. o movimento de teus olhos sugere e lembra-me o gesto de varrer. um agitado vasculhar o mundo causado por esse imenso sobressalto que não logras afastar.

_ sentia o calor do teu corpo e o cutucar do teu cotovelo a chamar-me ao real. a insistir comigo para não mergulhar na loucura…. prenúncio da tempestade que te habita… via-te, nefelibata. eterna criança

variável tapeçaria de sombra que te escurece o olhar não mais azul céu, mas embravecido mar onde nem o sol nem a mais fina linha de luar têm licença para entrar a iluminar os dias e inundar a manhã.

_ …e ficávamos à conversa diante de uma chávena de chocolate quente que adoravas. contigo aprendi o sentido da partilha, do comungar de ideias e do sentido da luta por melhor vida para todos neste nosso belo, mas triste país como dizias: “sem pena! penas têm as galinhas!”.

com obsessivo método, os sentidos alerta, varres o mundo em busca da silhueta do teu melhor amigo. exponente conselheiro que traiçoeiramente te empurrou para aquele falso degrau lançando-te naquela viagem em que a fusão com a loucura não aconteceu porque…

_ fitando o branco da cal, única beleza circundante na masmorra quando o sol nele incidia através de um único e fino raio de luz que, a hora certa, trespassava a seteira, via-te emergir envolta em luminosa rosácea. uma ténue e vertical linha de lucidez em ti sobreviveu.

foi essa tua constante presença, real ou imaginada, que me ligou à sanidade, à vida

TMara

XXIII

Um Pedido

Na conversa que mantive durante a viagem no comboio da linha de Cascais, numa manhã de domingo, um amigo dos meus tempos de criança desafiou-me para compor, com calma e sem sobressalto um texto onde constassem, obrigatoriamente, 60 palavras indicadas por ele.

Depois da programada visita ao farol e ainda com os salpicos da água do mar, que mais pareciam gotas de orvalho, a me molharem o corpo, resolvi afastar-me do grupo e, transportando comigo a habitual caixa de chocolate, transpus com um salto, num movimento vertical, o degrauerodido pelo tempo, na entrada da velha cabana, disposta a aceder àquele pedido que me parecia uma loucura dada a minha dificuldade em escrever.

A cabana feita de pedra e cal tinha uma rosácea a apontar para o céu, por onde entrava o luar mas, também o sol para iundar, sem pedir licença, a minha mesa de trabalho feita das raízes daquela árvore centenária que a última tempestade derrubara. Toda a área envolvente convidava a comungar daquele silêncio, conselheiro amigo que, nas horas mais dificeis, eu procurara como o melhor método para a resolução dos problemas amorosos da minha adolescência.
Recordo que não havia qualquer obstrução familiar às minhas escapadelas e o regresso a casa era sempre feito com alguma pena. Em dias de chuva, com o lodo a encher os caminhos, tornava-se mais dificil vencer o distanciamento que dali me levava à Vila.

A minha prima Guida, exponente máximo do bom comportamento, tinha uma enorme dor de cotovelo, não só pela esbelta silhueta que eu possuía, como também, pela liberdade que me era permitida e sei que albergava um amortecido desejo de morte, para que eu me perdesse na serra.

No vasculhar desta fusão de sentires e lembranças da minha vida já distante e que eu fechara no casulo do meu coração, recordei o inferno daquele dia, em que a luz ténue do fim de tarde me iluminava, enquanto bordava uma linda tapeçaria azul com flores quando a sombra de alguém me assustou.
Neste país de nefelibatas, a vulnerabilidade de uma donzela estava em jogo.

O vapor da água que, entretanto, pusera na chaleira para o chá, começara a sair e o imenso baú das recordações ia ser fechado para não deixar emergir formas e vultos que já estavam votados ao ostracismo no meu avassalador desejo de um esquecimento total.

É neste ambiente, repleto de tantas lembranças, que irei buscar inspiração para escrever o tema, variável na sua forma, prosa ou poesia, solicitado pelo meu amigo.
Benó



XXIV

A Dança


Era um dia qualquer de mês qualquer… apenas aquela temperatura variável fazia lembrar um momento único na vida… Olhei pela janela, observei o vapor e comecei a lembrar-me…
Estávamos na festa do farol, rodeados de flores e maresia. Cheirava a chocolate quente. O meu coração conselheiro advertira-me de um exponente afastar, onde a obstrução e a vulnerabilidade seriam cúmplices antes de a noite terminar.
Assim que soaram os saxofones, pegaste-me pela mão direita e conduziste-me à pista. Olhares indiscretos pisando o degrau da curiosidade foram ignorados. Eu não ouvia apenas uma música, mas várias. Fi-lo, envolvido num sonho penetrante, sem escrita, nem morte que me valesse. Fugia de mim e encontrava-me contigo para aquela fusão: a dança.
Iniciou a música e tu, amortecido pela bebida, disparaste aquele olhar avassalador, que me fez comungar o azul do céu, apesar do seu distanciamento.
Sempre foras um ser imenso na minha imaginação. Acreditei que depois da tempestade cumpriria finalmente a felicidade, mas nunca deixei de ser uma criança ingénua neste âmbito.
O teu corpo cedia às minhas mãos, sem licença, mas com uma graciosidade capaz. Bailar contigo equiparou-se a uma viagem à luz de um sol que espreita pela sombra da barba pela manhã.
As imagens eram apenas reflexos. Tu tocavas-me, subtilmente, na epiderme. Quando viste nos meus lábios a linha ténue entre medo e loucura, tiveste um sobressalto e convidaste-me a vislumbrar o luar.
Uma das melodias terminou e a conversa fez-me vasculhar naquela caixa encerrada.
Ouvia-se ao longe a água a cair no lodo e a emergir procurando um mar para inundar. As tuas palavras tremiam ao som das rochas, o telemóvel tocou e disseste-me:
- Que pena
Lamentavas sempre quando nos despedíamos de uma noite assim…
Deste-me aquele abraço envolvente, enquanto eu senti o toque do 0rvalho no teu cabelo.
Fiquei a observar a tua silhueta enquanto te afastavas pisando na tapeçaria de cal deixada propositadamente para os teus passos, num tom erodido da pedra que te viu ir tantas vezes.
A tua partida foi equiparada ao inferno, porque levou-te de mim. Se não estivéssemos em portugal o nosso amor não sofreria ostracismo.
Ficaste longe, num casulo, onde não te poderei tocar jamais.
Desprezo qualquer movimento à minha procura.
Desenho uma rosácea vertical com sangue do ponto mais duro do corpo humano, o cotovelo.
Espero que esta missiva te encontre e saibas exactamente o que senti quando largaste a minha mão pela última vez.
Agora sou um nefelibata que solta as raízes do passado a cada palavra que escreve… o meu método...
Adeus

Eli Rodrigues

XXV

Expiação

A loucura possuiu Ahmed. Encolhido na sua djellaba, contempla a noite vestida de azul, que colhe o mundo do seu olhar. O corpo soluça-lhe, a alma atassalha-se, cobrindo-o ainda mais da tafta de Morte. Ahmed está louco, louco de raiva. Ergue os braços para o céu, que imenso não o reconhece. Pobre linha na vastidão daquele mar de areia. Os grãos minúsculos aguilhoam-lhe o corpo, quais balas cuspidas por um farol de ódio. E o vento avassalador vergasta-o com seu hálito, raspa-lhe os sentidos, agride-lhe as carnes, mas Ahmed mantém-se vertical, aprumado, desafiando a tempestade que o rodeia e consome. Vem de dentro para fora, e de fora para dentro. Um comungar de elementos mais de iras. A fusão é diabólica. Entrechocam-se no pulsar de um coração sangrado, revolto. A náusea de estar vivo. O ódio de existir. A putrefacção do acto. Ahmed repudia-se. O arrepio de frio, desdém, e dor estremece-o. Acorda-o no seu casulo de destruição. E o vento continua a sua dança por entre as dunas. Faz e desfaz. Tira e põe. Um brincar cruel de criação negada. A noite sem luar, escura, ignóbil é testemunho da silhueta opaca e ubíqua que beija as areias já frias onde em tocas perfuradas vigiam o lacrau, mais a áspide em sobressalto de injúria. É ténue a diferença que os une e separa. O ataque, a incursão, a traição, a defesa, a sobrevivência. Palavras geradas para mitigar a definição que na ponta da língua o som teima em afastar: Aleivoso!
Ahmed Erodido de si, dos homens, e da vida, recolhe-se encostado às dunas fustigadas do deserto. Ali, onde o céu enrola o tempo, o dia magnifica as areias e o vento castiga o silêncio das coisas. O seu mundo, a sua casa, rosácea da sua alma em vitrais irisados de orvalho gotejado dia após dia no fragor de um destino em espiral. Atrás de si, ergue-se a sombra do inferno. Os gritos, convulsões e estertores apanham-no. Em pânico, em movimento convulso deita as mãos frias aos ouvidos, revira os olhos, a mente implacável deambula no seu contínuo martelar. A respiração entrecorta-se, espuma-se a boca e de novo o revirar dos olhos, o emergir da raiva. Não quer ouvir mais, chega-lhe! As têmporas latejam-lhe. Sente que o sangue lhe aflui à alma deixando-o cambaleante. Ahmed levanta-se. Um passo, dois, um tropeço. As babuchas enterram-se tornando-lhe os passos pesados, doridos. A sua vulnerabilidade, mais do que física, é dos sentidos. A fragilidade de si encova-lhe o pensar, restringe-lhe a acção, suga-lhe o alento. A luta do homem no abismo do bem e do mal. Derruba-o no lodo fétido da intenção. Pensa no presente, metamorfoseia o passado, e sofisma o futuro. Ahmed é homem. Ahmed pecou. Ahmed violou a lei de Al-Karim. Abjurou o seu Senhor, Alá. A sua punição? O ostracismo a que o votaram. Um proscrito. As suas raízes tinham sido esgravatadas, puxadas e depois simplesmente deitadas ao vento. Ficou assim cerceado da terra mãe, a família. Quando tudo aconteceu teve a nefelibata suposição que o perdão seria o unguento do seu pecado. Vã ilusão, degrau amortecido de razão. E agora, ali, só, no desvario envolvente do hálito enraivecido da noite, Ahmed convulso, irado, martirizado, cospe a raiva numa boca árida de água. Todo ele é caule sem seiva, erva seca de aridez maldita na tapeçaria agreste do deserto.
Dealbam os primeiros raios de sol, quando Ahmed exausto recolhe à sua tenda. A manhã irrompe no horizonte. Na frescura do interior respira o odor fresco do chá de menta. Inspira e, os ombros aligeiram a pressão interior. Na bandeja amarela de metal martelado, um bule e um copo. O chá espera-o. Ah, que prazer! Lentamente, rola o líquido na boca humedecendo-a. A viagem que durante a noite empreendera deixara-o exaurido, a conversa-solilóquio que mantivera deixara-o vazio. Agora, sob as paredes de lona, deixa que a lassidão inicie o seu vasculhar dando-lhe o sono de criança que o espírito carece. Abandona-se submisso ao torpor lasso dos sentidos.
O deserto respira em gotículas minúsculas de vapor oclusas nas paredes do Céu. Impetuosa, a caixa de luz abre-se. Os raios amarelos, fortes, quentes e imperiosos varrem as areias, obrigando a vida a recolher-se. Há um inundar massivo de luz. Uma explosão, um ímpeto desmesurado, um látego no corpo que obriga ao distanciamento, à protecção, à quase semi-coma, a fim de a sobrevivência ter licença de vida. Sentem-no os seres que pululam pelas areias tingidas de amarelo. E o sol passeia-se inexorável. Já na vertical queima os sentidos, bruxuleia ainda mais os rostos-chocolate, dando-lhes o tom ocre de terra, de sangue, de luz, que a cal do traje mais contrasta. O deserto é mulher menstruada, variável no seu ciclo, ora conselheiro do espírito, ora algoz da vida. Irrita-se no despir do dia e tinge-se de vermelhos belos, cobre-se de miríades centelhas, mas porque é belo sem ser cantado, ruge em despeito. Depois apazigua os sentidos, mas logo rebenta em ondas quentes que queimam. Nesta obstrução de método, nesta brutalidade de sentires, o deserto é exponente enigmático da condição humana.
Na tenda as horas rolam dolentes. Ahmed acorda. Bate as palmas. Uma mulher surge, leve e breve. O vulto é colorido, os olhos são azeitonas negras. O khol, que os contorna, torna-os maiores, profundos. A emoção reside ali. A figura é grácil. A túnica de seda cor de pêssego esvoaça, o icharb tapa-lhe os cabelos. O rosto mate, sereno e belo está baixo. Os olhos poisam no chão. Há silêncio, apenas o esvoaçar do tecido, o entrechocar das pulseiras que se estendem do pulso até um pouco antes do cotovelo, são o único som tangível. Amina a adúltera. A terceira esposa de Amir., o seu irmão mais velho. Roubara-a. Fugira. Violara as leis do seu País e sobretudo as do seu Senhor, Alá. Olha-a docemente. Sente o seu odor a flores de jasmim branco. Uma quietude desconhecida desce na sua alma. A expiação terminou. Dá-lhe a mão, puxa-a para si. Bebe-a. Bebem-se. Esgotam-se sem pena, sem dor. Assim. O amanhã já morreu.
Mateso

XXVI

Liberto do casulo exponente, erodido pelo sol, em sobressalto me ergo vertical rumo ao céu azul, a loucura dos Jogos a inundar a minha alma de nefelibata.
Comungar o espírito envolvente das Olimpíadas, dançar na silhueta esguia sobre a trave, correr perante a obstrução sistemática nos obstáculos, mergulhar nas raízes do dardo e do disco, firmar o cotovelo nas argolas, com método emergir das assimétricas e afastar a morte em saltos de trampolim.
Avassalador o movimento dos remos, veleiros qual pena em busca do farol, vejo o meu corpo mergulhando em viagem alucinante na água, nas rodas a seguir, a corrida logo depois a retirar o nome de Portugal do ostracismo.
A rosácea da China inscreve no pergaminho do lótus a vulnerabilidade da criança na sombra ténue da manhã de orvalho ouvindo o conselheiro em conversa amena. Sentada no degrau, a caixa de chocolate ao lado, as flores, o luar, ornando qual tapeçaria a tempestade no mar imenso da violência actual contra a vida, inferno de lodo amortecido pelo vapor das medalhas.
Vasculhar sem licença na linha de fusão, branqueada a cal, é quebrar o distanciamento variável entre o mosquito e o homem.
Miruii



XXVII

A caixa

Caminhava em sobressalto deixando marcas na tapeçaria da sala. Não via através da janela o orvalho da manhã, o azul do céu ou o luar que brilhava vertical sobre os montes. Parecia acalmar-se um pouco quando alguma tempestade se erguia em obstrução à beleza da paisagem. Olhava então as raízes das árvores molhadas como se o seu corpo quisesse entrar em fusão com elas. Era assim no início do tempo a que chamava viagem. Dizia assim : viagem. No rosto, nem um movimento. Loucura ou método, como saber? Nada parecia emergir daquela face onde o sol não pousava.
Tentaram, talvez por pena, que uma reacção, ainda que ténue, amenizasse o distanciamento dos olhos, única expressão não variável no rosto frágil que comovia pela vunerabilidade. Alguns trouxeram-lhe flores, outros tentaram fazer conversa, outros ainda levaram-na até ao mar, junto do farol. Nada, nem a criança que brincava no degrau do molhe, lambuzando-se de chocolate, nem o envolvente horizonte de água cujo cotovelo abraçava a areia e o imenso penedo erodido, nem o voo da gaivota entre o lodo e a cal das paredes brancas do cais, nada mesmo a conseguiu abstrair da viagem que a sua vida tinha iniciado. Falaram-lhe da necessidade de se libertar do ostracismo a que se tinha votado e de comungar com todos os que a rodeavam os reais problemas do país
, saindo da sombra em que se escondia, daquele silêncio amortecido de larva em casulo. Só os braços se abriam em rosácea e pareciam afastar quem se aproximava.
Diziam que aquele alheamento a conduziria a morte
certa e aquela viagem da qual ninguém sabia o destino acabaria nalgum inferno pessoal que só ela conhecia. O amigo e conselheiro predilecto, nefelibata que se afastava da linha de sentimento prático dos outros, ousou vasculhar, sem licença, a sala onde caminhava, como se a sua viagem se resumisse àquele espaço. Num pequeno recanto encontrou uma caixa que colocou bem visível, sem a abrir.
Contam que nessa noite a tempestade andou à solta, com um ruído avassalador. As ondas deixavam rastos de vapor sobre as rochas, a água ameaçou inundar as casas dos pescadores, como há muito tempo não acontecia. Na casa, a silhueta da mulher agitou-se até que um grito soou, exponente e parte integrante dos apelos do vento e do mar. Abrindo a janela há tanto tempo fechada, os braços estenderam-se e das mãos voaram cartas, fotos, poemas que se deram à tempestade. O testemunho de um amor, dizem. Quem conseguiu ver garante que, pela primeira vez desde o início da viagem, ela dançou ao ritmo do vento, qual vulto alado que, finalmente, tinha encontrado o destino.
Vida de vidro

XXVIII

O Farol

A abrupta e vertical noticia , deixou um efeito avassalador no coração daqueles pais. A morte rondava o corpo daquela criança, segundo o médico exponente. Sem pedir licença, uma doença desconhecida e mortal, tinha afectado o seu filho. Loucura total. Teriam de agir bem rápido. Sair do país, não era sequer uma obstrução, pelo contrário, deixava emergir uma esperança, por muito ínfima que fosse.
Diriam ao menino que iriam fazer uma viagem, que iria ser muito do seu agrado, pois proporcionava-lhe ver as coisas mais belas que alguma vez já tivesse visto e ao mesmo tempo ter como conselheiro um novo médico, para tratar a sua doença. Estavam na disposição de correr mundo e “vasculhar” todos os seus cantos, todo e qualquer método de cura para o seu tão precioso “tesouro”.
Sentiam aqueles pais, o ostracismo de Deus e suas simples vidas transformadas num verdadeiro inferno.
Saíram os três, de malas feitas, numa cedissíma manhã de orvalho. A sombraténue da madrugada começava a comungar com o nascer do sol.
No barco a vapor, o distanciamento de sua terra, fazia-se já sentir. A linha do horizonte era a fusãso perfeita, do azul do mar, com o azul do céu.
O menino olhava em frente, como quem quer absorver tudo, aquele imenso mar, o movimento amortecido do navio, as gaivotas no céu, era tudo tão envolvente para ele.
As viagens decorreram sem sobressalto. Navegaram em águas calmas, sempre, nem um indicio de mínima tempestade que tanto receavam, mais pela criança que por eles próprios.
Foi observado, por muitos médicos, por muita outra gente, mas a conversa, infelizmente era variada, mas não variável no seu conteúdo.
A mãe todos os dias ia à capela frente à sua casa, onde de tão antiga que era, a CAL caía de suas paredes em abundância, mas nem se dava conta disso. Na sua vulnerabilidade, ora orava, ora simplesmente olhava sem ver a rosácea, apenas seu olhar fixo nas suas cores. Era o seu pequeno momento em que se sentia nefelibata.

A silhueta do pai, todas as noites, se podia ver à luz da candeia, fechado no seu casulo inerte, apoiado no cotovelo e sua mão a suster a cabeça, simplesmente sentado na sua poltrona de sempre. Pretendia assim, afastar aquele mau sonho, aquela tão dura pena, que a todos tinha atingido de um momento para o outro.

Mandou fazer e colocou no quarto de seu filho, uma tapeçaria na parede com motivos de mar, porque após a viagem, o menino, nunca mais falava de outra coisa.

Um dia o pai ofereceu ao filho uma linda caixa em forma de navio e lá dentro chocolate. O menino abriu a caixa, fixou o conteúdo e disse com voz muito terna: Vi tanta coisa, papá, mas nunca vi um farol de perto, nas nossas viagens todos estavam tão longe!!! Em toda a minha vida sempre desejei entrar num.

No jardim da casa, outrora soberbo, as raízes vagueavam por muitos lados, o lago já não continha água, apenas lodo e folhas velhas, as flores cresciam desordenadamente, mas o pai pensando que pelo menos esse desejo de seu filho podia realizar, mandou construir um farol e em simultâneo tratar o jardim, que há tanto tempo o menino não frequentava.

O farol ficou pronto, num curto espaço de tempo. Parecia até real, igual aos faróis que iluminavam as viagens dos navios.

Pegou no seu filho ao colo e sua esposa a seu lado, subiram degrau a degrau, com o luar atrás a inundar aquela tão bela obra de arte.

O menino ficou maravilhado, riu, sorriu, deu grandes gargalhadas, ficou calado, estupefacto, incrédulo, mas foi o momento mais feliz da sua tão pequena existência, e disse: Papá! Mamã! Obrigado!!! Este dia valeu por todos os outros dias que vivi, o dia mais emocionante da minha vida, jamais o vou esquecer. Eu vos adoro muito, muito, muito!!!.

E ainda hoje, após tantos anos passados, se pode ver aquele farol, embora erodido a sobressair daquela casa agora desabitada, onde tanta dor, tanta lágrima e tanto amor, como o farol, ainda lá residem.
Lis Varela


XXIX

Rasgos de luz através de uma rosácea ideada.

Tu, pai, que foste meu amigo e querias ser meu conselheiro, transformaste-te numa estranha viagem. Tapeçaria de imagens e sons que morreram contigo no dia que morreste sem mim.
E sem ti, fiz-me casulo de tudo e de nada. E o luar tentou inundar a minha raiva pueril de estrelas mas a minha vida tornou-se num inferno de movimentos acorrentados.
Sem farol, num imenso mar de tempestades, sozinha podia observar o emergir da loucura. Como se não houvesse nunca outra manhã.
Sabes…? Sinto-me num país onde o ostracismo é uma torneira gotejante que ninguém estanca e onde variáveis intemporais deitaram raízes em solos alheios acreditando ser de seu direito fazê-lo.
Como pretendi tantas vezes afastar com método a dor, obstrução da beleza que talvez exista…”
Sem ti, Pai, viro-me contra o mundo, vendo-o como um corpo em sobressalto que todos desejam vasculhar como se fosse um saco do lixo. E nele não descubro flores, Pai, só morte. E vejo no lodo os que nada têm e os que tudo vão perder. Sem ti, Pai, passei a ouvir gritos avassaladores durante a noite e o ranger das portas do inferno.
Já não sou criança e as minhas entranhas desprezavam o cosmos, falso exponente da fusão, esse cosmos eternamente erodido.
Calo-me, amortecida
Não! E grito ao mundo: “- Usaste a minha vulnerabilidade para tingir de morte tudo o que me rodeava. Caminhei na tua vertical como era tudo tão mais fácil… - até voltar a acreditar que vale a pena comungar das mãos de seres humanos.
Eu sei Pai… como Ela dizia: “Olha-te ao espelho e permite-te ter pena de ti durante cinco minutos. Apenas.”
E de cotovelo na mesa, apoiando o queixo, olho para o que escrevo e pergunto-me como vinte anos depois ainda tenho estas conversas contigo por meio de caracteres dedilhados.
Raquel Vasconcelos

XXX

PALAVRAS


Nada amortecido, porque era avassalador o seu desejo de passar bem o fim de semana, Simão preparou-se para a viagem. No azul do Céu conseguiu ver alguns farrapos brancos. Deixou-se comungar pela beleza do dia, sabendo que nenhum distanciamento o deixaria erodido.
Na primeira paragem, no Farol da Roca, deslumbrou-se. Havia no ar uma fusão de cores e cheiros. À sua frente o imenso mar, bastante calmo, deixava adivinhar uma serenidade plena. Muito diferente da tempestade que era habitual naquela zona.

(Sempre que havia festa naquela casa, era uma enorme caixa de chocolate a prenda certa. Era mais um degrau, na caminhada para o fim da vida, qualquer aniversário. Mas era envolvente o carinho que todos partilhavam. As flores, em grande quantidade, lindas todas elas, espalhavam-se pela casa. Naqueles dias todos tinham licença para não ligar à ”linha “. Os doces eram qualquer coisa de inebriante. Com sabores diferentes, pareciam sol e sombra no seu contraste. E a ténue diferença entre o certo e o errado – a contenção ou a gula – era a viagem perfeita para a imaginação. A vida assim, fazia sentido)

Simão não se queria afastar dos seus pensamentos. O sono fora bom conselheiro, e ele, que já não era criança (dez anos na sua raça representavam muito) era o exponente máximo da dedicação ao seu dono.
Logo de manhã, ouvindo notícias na rádio, soubera da morte de um seu amigo.
A tristeza pedia-lhe que houvesse uma obstrução na sua mente. Para esquecer decidiu sair e recomeçar o passeio pela vila. Na rua, o orvalho da manhã dissipava-se. Ao olhar a serra ainda não conseguia ver o Palácio da Pena. Numa silhueta, lá no alto, adivinhou o Castelo dos Mouros. Tudo à sua volta era uma perfeita tapeçaria onde a cor dominante era o verde, na serra e no vale. Frágil, Simão desistiu do passeio. Tinha medo que a sua vulnerabilidade o traísse.

(Na casa, mais propriamente na quinta, a água abundava. Havia vários furos o que permitia, sem custos extras, a existência de vários lagos. A cal, que cobria as paredes da casa, era um elemento de paz. Casa de um só corpo, mas muito grande, pensada para uma família de muita gente. Apenas um pequeno pormenor, em forma de cotovelo, se destacava das linhas, perfeitamente simétricas, do imóvel. Pormenor que muito agradava ao Simão, que ali vivia. Local excelente para apreciar as habilidades dos peixes vermelhos, no tanque grande, a emergir à procura de restos de pão. No fundo, no lodo imenso, o alimento abundava. Mas para eles, peixes brincalhões, era uma loucura a partilha do pão com as crianças da quinta. O método utilizado era bem parecido ao dos golfinhos nas suas travessuras no mar.
Frente à sua casa, as árvores centenárias, com raízes bem salientes e visíveis, enchiam de sombra o largo. No entanto, a estátua antiga e já partida, encimada por uma rosácea, era a primeira vitima do avanço das raízes.
Na quinta era frequente o sobressalto dos cães. Inquietos, não conseguiam perceber de onde vinha aquele vasculhar. Apenas lagartixas que, no meio dos arbustos, tinham os insectos por alimento.)

Simão não quis fechar-se no seu casulo e tentou uma conversa séria com os seus amigos. Farto das graçolas constantes, achava um inferno toda aquela futilidade. Ao perceber que o tema não mudaria, deixou-se inundar pelo sonho. Lá fora havia luar, bastante visível, aliado ao movimento das nuvens que corriam empurradas pelo vento. Talvez por isso o achassem um nefelibata, mas pouco se importava. O ostracismo a que por vezes era condenado, esse sim, magoava-o fortemente. Nessas ocasiões desejava viver noutro país. Empreender a viagem com que sempre sonhara (de repente, imaginou-se num vapor do Amazonas…) . Os sonhos também terminam mas Simão, com um temperamento variável, achava que só na vertical conseguiria caminhar pela vida.

Zé-viajante

5 comentários:

Paula Raposo disse...

Eu acho fantástica a nossa imaginação! Estão todos de parabéns! Obrigada Eremita! Beijos.

Mateso disse...

Na verdade a árvore continua a frutificar!
Parabéns !

Lis disse...

Engraçado, o resultado de 60 palavras iguais de 30 pessoas diferentes.
Obrigada pelas boas vindas.
Obrigada Eremita!
Um abraço

vida de vidro disse...

É nesta variedade de olhares que encontramos a riqueza deste jogo. Espantoso! **

Anónimo disse...

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