terça-feira, julho 29, 2008

5º Jogo das 12 palavras (último a integrar o livro) "22 Olhares/12 Palavras")- 3ª e última parte


XXIII

sopro ...de .... luz ... No vapor....

esta conversa é de lua. Luar em movimento vertical. E "a.casulo-me" com gestos
de vapor onde teço um inferno que te faça ser o meu país. Ostracismo maior em
que me inundo de ti. longe da realidade. sou-te nefelibata.
Inundo-te. Vem.
"Inundar".me de luz de Luar!

I.M.F

XXIV

Corrida de sábado

Emídio, morreu.

“Deve ter tido uma dor a inundar o peito”. “Uma dor enorme”. Assim falariam gentes sobre o caso. E diriam que Emídio perdera o rumo. Que um passo atrapalhara o outro. Que a vertical deslizara sobre o piso. Diriam, assim, de como Emídio caíra num movimento lento. Morto.

“Enfarte fulminante”, era a voz dos médicos numa conversa mole em volta do corpo, passariam uns minutos das nove. Era já noite.

E tudo se passara em mais uma corrida de sábado. Corriam desde que Emídio tinha menos doze anos do que os quarenta e quatro que perfizera em Maio. Ele e Ubaldo. Corriam juntos desde há doze anos. Os dois, sempre, e alguns amigos.

“Um sábado igual aos outros”, diria Ubaldo, depois, quando lhe perguntassem como tinha sido. Eles iam à frente, Emídio ganhando, a uns escassos dois passos. Uns breves instantes, poucos, e poderia mudar quem seria o ganhador da noite. Sempre fora assim, desde há doze anos. Sábado atrás de sábado, Ubaldo dois passos atrás e Emídio na frente. Nunca mudara quem chegava primeiro Nesse sábado, tudo seria igual. Faltaria, apenas, a palmada no ombro:

- Porra, Ubaldo, ainda não foi desta!

E Emídio ria. Riam sempre os dois.

O amigo de infância, criado porta com porta, carteira de escola partilhada, da primeira à quarta. E o liceu que fizeram juntos, do primeiro ao sétimo. E a mesma faculdade ministrou o curso de um, e no curso do outro.

“O teu irmão de leite”, sempre ouvira sua mãe dizer. Ela que dera o peito que faltara à mãe do amigo. Emídio. Uma cara de anjo, apesar do moreno, quase negro, debaixo de um cabelo em forma de casulo. Um cabelo negro, enorme. “Lindo homem se fará Emídio”, diria amiúde a mãe. E Ubaldo ouvindo. “Que tu também és lindo, Ubaldo!”, acrescentava ela.

Os dois sempre juntos. A primeira viagem a um país distante onde andaram em rios, num barco a vapor. O casamento num mesmo dia de sol. variável, apenas o local onde fizeram núpcias. No resto, nem um, nem o outro, podiam acusar-se de ostracismo mútuo.

“Teu irmão de leite” dizia a mãe, cuidando que era um feito ter ele partilhado a sua mãe com outro. “Um inferno", era o que sentia Ubaldo, andavam pelo liceu. Um irmão moreno e ele com a pele de um amarelo desbotado e o cabelo, oleoso. Um cabelo que lhe veio caindo até ser ele careca ainda nem completara os trinta e cinco. Tudo relevado, e a vida foi correndo. “Ubaldo e Emídio tão amigos!”, eram todos unânimes, dizendo, olhando.

Desde há doze anos, cada fim de tarde, já noite se é Inverno, a corrida de sábado. “Estava luar, recordas-te? Uma lua enorme. E tu viste a vizinha do lado a correr com o cão. Começaste a correr, para a imitar. Lembras-te, Ubaldo?” era o modo de recontar de Emídio. De ir dizendo como começou o hábito, quase vício, das corridas de sábado. “Tu galavas a tipa, heim, Ubaldo?!”, acrescentava Emídio. Ficara combinado, até hoje, como havia dito: “havemos de correr todos os sábados, à noite, de aqui em diante” e selaram com um forte abraço que todos sempre disseram: “tão amigos que são, nem que fossem irmãos”. E a mãe, se ouvia, lá ía explicando: “eles são, sim. São irmãos de leite e muito, muito amigos”.

Mais um sábado. Mais uma vez, Ubaldo saindo de casa com um desejo que o punha doido. “É hoje que o apanho. É hoje que lhe ganho”. Sábado a seguir a sábado, um mês, dois meses, um ano. Anos após anos, até ao dia de hoje.

Emídio gingando à frente. A meta a quase pouco. Uma mão sobre o peito, a boca num esgar que parece riso. Emídio deslizando no ar. Caindo, caindo.

Ubaldo, a menos de dois passos, respira compassado, a cabeça ocupada com o sonho. Ubaldo ultrapassando Emídio. Olhando-o de lado, a ver-lhe a pele morena coberta de gotículas de um suor de esforço. Ubaldo acordando de um grito sonhado. Simplesmente um “ganhei” que sobrava no quarto.

Ubaldo a dois passos do irmão de leite, o amigo de muitas corridas pela vida, sempre um passo à frente. Na passagem de classe. Nas décimas que acresceram um valor à nota de terminar o curso. No cargo da empresa que calhara a Emídio ser quadro superior e a Ubaldo chefe de repartição.

E a somar a isso, os sábados de corridas.

Tudo reviu Ubaldo naquele lapso de tempo em que Emídio caía, rolando. E Ubaldo olhando a araucária que sempre lhes servia de meta.

Só mais quatro passadas. Ele nem dava por nada.

Ubaldo contornou os pés do amigo, caído no passeio em que ainda há nada corria.

Ubaldo, sozinho, na frente. Nefelibata era como ele estava.

Tresloucado, gritando: “ganhei!” agarrado à árvore, abraçado ao sonho, atingindo a meta.

Ganhara, finalmente, ao seu irmão de leite.

Mcorreia
XXV

MEIA DOSE DE AMOR

Vogais e consoantes que me cospem no rosto o teu perfume.

Conversa ou com versos que tento decifrar ao bater de frente com o vazio.

Sensação de queda em estado líquido sem pára-quedas.

Ar em movimento em cada vírgula lançada no pretérito imperfeito que mais não é, nunca foi, nem será, luar.

Ai meu Deus!! E tu aí fragmentada em bocadinhos de vapor em pó.

Esquecida no ostracismo libérrimo dos advérbios de modo a te tornarem vertical.

Torre de vigia das estrofes e sonetos mastigados à luz de vela. Apagada!!

Meia dose de silêncios dactilografados no mapa do teu país.

Onde me perco guiado por uma bússola variável e avariada que uso para encontrar o ponto onde termina a meia dose de amor e começa o inferno gélido de querer ser inteiro como uma merenda nefelibata que apenas as tuas mãos conseguem temperar, refogado poético de inundar o meu mundo com a metáfora fora da meta que juntos personificamos antes de ser só meu o casulo dos nossos delírios. Hoje disjunto com apenas meia dose de amor à meio do nada.

ParadoXos

XXVI

Um sonho. . .

Quem nunca sonhou viver no país ideal? E será que existe?
Tantos países, tantos povos, tantas crenças, tantas mentalidades diferentes, mas todos querem ter uma boa vida e serem felizes.

Ninguém quer viver no inferno como nós citadinos vivemos, mas temos que o fazer. Vive-se uma boa parte do tempo a andar a vapor para o ginásio, para o trabalho, e até para passear... luar ou não, na cidade, quase se não dá por isso. "Não temos tempo"!
O movimento da globalização é bom por um lado, mas veio inundar os países de marginais.
Ninguém quer ser vetado ao ostracismo nem viver num casulo, por obrigação e falta de segurança.
conversa dos políticos não é variável, mesmo os que têm boas intenções. Depois de lá estarem parece esquecerem que antes queriam ter uma atitude vertical!
Fui, sou e serei um pouco nefelibata, sonhar não faz mal a ninguém, não paga imposto e faz bem à mente.

Como diz o poeta “o sonho comanda a vida…”.
Mas também está nas nossas mãos tentar inverter toda esta situação. O velho ditado “a união faz a força” aplica-se bem a este Mundo tão alterado e agitado.
Há coisas boas, mas há mais coisas más e se o Homem teve inteligência para chegar onde chegou, também terá a inteligência suficiente para emendar o que está errado.

Ainda acredito e tenho que acreditar que o futuro dos nossos filhos e netos será melhor.

mj/Skuba

XXVII

Hoje consumi-te numa conversa
e senti meu corpo flutuar,
sobre o movimento de um luar
senti a tua paixão perversa.

Falamos sobre o país e o querer,
sobre o inferno e o amor,
e perdemo-nos no vapor,
que ficou de te perder.

Vem, sai desse casulo escuro,
vem inundar o peito de ternura
que sou neffelibata que perdura,
no caminho que procuro.

Vence o ostracismo que não há mal
e prova esta nossa variável.
Prova da vontade inabalável
deste meu amor vertical.

-=amadorjp=-~

XXVIII

epifania

Eduardo nasceu num país de acrobatas. cresceu num casulo urdido pelo ostracismo a qualquer variável do status quo, em que a diferença era um prenúncio do inferno. Eduardo trazia consigo a semente da mudança. muito vertical, presenciava serenamente o movimento quotidiano dos seus conterrâneos e saudava alegremente os forasteiros. numa noite de luar, em conversa com um nómada nefelibata, sentiu-se inundar pela mais pura paz e entendeu que vivemos todos nas nuvens. só a condensação do vapor é diferente.
Ana Eugénio

XXIX

Faire Pendant

No calor sufocante do Inferno, a alma entreabre o casulo que a reveste e tenta respirar. Lá fora, na abóbada que cobre o lugar, o calor dilui-se por entre espirros de vapor, que infernizam as outras almas em passeio nocturno. Tímida, incauta despe-se da sua pele e voa pelo espaço. Vagueia em ziguezague, está meio zonza, a esfera é pesada, enxofrada e arrepanha-lhe o espírito. Imprime mais movimento ao seu vaguear, como se a rapidez lhe desse o alento que sente desfalecer. O lugar para onde a enviaram é casa de expiação, sente-o. A morte apanhara-a desprevenida. Estivera dançando com o luar, e num pestanejar azul fora-se, lado a lado, com um suspiro de adeus. Depois fora a viagem. O casulo onde a tinham depositado, após pesada, medida e avaliada, tinha-a forçado a uma postura vertical que lhe comprimira os neurónios, de tal forma que ainda não apreendera o todo da sua novel situação. Para já e após um breve vistoria apurara que o lugar era variável em temperatura de acordo com o número de casulos que chegavam. Regressada ao seu alvéolo, prepara-se para descansar um pouco quando entre ouve uma conversa de outras duas almas, por sinal um pouco afogueadas que lhes confere um tom rosado de quase felicidade. Conversavam, assim, as energias:

-O ostracismo grassa lá por cima.

-Nem me diga. Os meus últimos dias foram péssimos…Não me ligavam nada. Posta assim de lado como se a lepra me tivesse tomado.

-Mas então porquê, o que é que a querida fez, ou não fez?

-Olhe a querida sabe que no meu país, pois a menina vem de um outro mais a norte, e desconhece as regras, mas como lhe contava, lá por bandas do Oeste”quem não é por mim é contra mim”. Uma frase já muito antiga, pisada, descartada mas que serve sempre para vestir quem calça os corredores do Paço.
-…?
-Eu explico, querida. Tal como na moda, as ideias devem faire pendant, faz parte das alíneas do Tratado Europeu. Não somos nós Europeus, todinhos, pelo menos nesta secção? Veja as benesses que temos em relação aos pobres chinesitos…

-Lá isso é verdade, temos mais direitos…muitos mais…mas também eles não estão habituados, não lhes deve fazer impressão.

-Rica, mas como lhe dizia, tive assim um ataque de rebeldia e decidi vestir a minhas ideias. Foi o fim, querida. O fim! Fui logo posta de lado, riscada e enxotada, assim à laia de mosca varejeira. Senti-me a coisa mais abjecta apenas porque pensei, veja lá, mas fiquei tão desgostosa, ferida, magoada que tudo isto acabou por inundar o meu ser, e assim finei-me.

-Pobrezinha da rica. Olhe, myself também…, estou ainda a acomodar-me, pois que como sabe, só cheguei após o resultado do referendo na minha Ilha. Naturalmente que votei Não. Logo, fui considerada persona não grata e expedida directamente para este lugar. Lá fora vive-se numa banheira de espuma sem água. Só marketing. Fazem-me lembrar os nossos duendes mais os potes de ouro, só lendas….Como vê é tudo igual, por isso é que estamos na ala da Europa que por sinal é enorme.

-Pois a menina tem toda a razão. Andei eu uma vida inteira a pensar e a penar pela Europa e afinal vejo que este lugar está repleto. De boas intenções vaiadas. Um dia destes, o continente passa a ser aqui. Pelo jeito parece que a população aqui cresce a olhos vistos. Se excluirmos o ar, até se está bem melhor do lá em cima ou em baixo, olhe que perdi o tino, e depois, querida, podemos ter as nossas ideias, não podemos?

-Ah, claro que sim, e até fazemos manifestações, e somos ouvidos… veja uma coisa quase inaudita para mim… desde que a Ilha passou a estar em Paz, como dizem, tudo deixou de ser ouvido. Era lá para os lados de Bruxelas que cozinhavam as nossas vidas, sem sequer se dignarem a saber o nosso prato preferido. Tudo igual. Uma vergonha.

-Um horror, rica. Sabe que ao olhar para trás vejo que não passei de uma nefelibata. Nem me apercebi que estava rodeada de tartufos e mentecaptos. Fico estarrecida. Agora!

-Ai rica, que a menina fala caro. Também só pode” né”? Lá nas suas bandas são todos bem-falantes e pouco mais…Um país de linguajar pomposo para esconder a pobreza de…

Ouve-se um estrondo, seguida de uma algazarra, logo sobreposta por uma voz imperiosa. As duas almas calam-se. Escutam. Então a alma lusa, aflita contrapõe:

-Ó rica, ó rica, cale-se que vem aí o meu chefe, deve ser engano, mas se me apanha a falar estas coisas ainda me despromove e …Lá vou parar ao quinto dos infernos! Sabe como é, não sabe, rica? Sempre à faire pendant!

Mateso

XXX
Nas Velas de um Sonho

Julho de 2008 - finalmente tinha chegado o dia de soltar amarras e seguir a bordo daquele pequeno veleiro. Apenas um par de horas mais para zarpar, um tempo que parecia interminável e tornava aquela espera um verdadeiro inferno.

Voltou a olhar para o mapa pela milionésima vez seguindo com o dedo a linha vertical há muito traçada que mostrava a rota a seguir. Como destino um país mágico, de lendas e de Vikings.

Aldeias de velhos Lobos do Mar, pequenas enseadas onde o tempo era tão variável que por vezes era possível ser-se surpreendido pelas quatro estações do ano num só dia, refúgios de piratas condenados ao ostracismo_________tudo isto e muito mais fervilhava no imaginário da sua mente.

Absorta em seus pensamentos de quase nefelibata, nem se tinha dado conta que navegava já embalada no movimento suave da ondulação do mar báltico.

Entrou e sentou-se à mesa onde a conversa corria solta entre os seus companheiros de aventura, das canecas à sua frente soltava-se um vapor aromático que sorveu com prazer.

Em breve o luar viria inundar de prata aquele casulo aconchegante onde se encontrava.

Fechou os olhos e sorriu, sim, sentia-se verdadeiramente feliz...

Micas

XXXI

Insanidade incipiente

Parte II(continuação do texto do 4º Jogo)

Acordou. Estava viva. O luar deixara de inundar de sombras a capela e qualquer movimento adquiria finalmente vida real. Apenas a poeira fina se lhe colara à pele… permanecera desacordada bastante tempo.

Todos os sinais lhe tinham ditado que se encaminhasse para a capela: A noção que a caminhada para o inferno da loucura se havia iniciado tornara-se flagrante.

A luz que atravessava a bela rosácea fê-la descobrir algo. Sentiu um calafrio… Um esqueleto jazia abandonado na escadaria superior da capela. E aquele ser desmembrado entrelaçava-se no enigma de ainda estar viva.

Chegou mais perto e descobriu uma adaga, cravada na vertical, e que assim se ficara enquanto o ser se decompunha. Observava toda aquela encenação macabra e a incógnita de tudo aquilo matraqueava-lhe o cérebro… Porque não reparara em nada quando entrara?

Procurou mais detalhadamente e encontrou um anel em ouro velho com rubis embutidos. Era um anel de família que passava de pai para filho. Quem ali jazia era seu pai. Era a primeira resposta exacta que encontrava. Recordava-se de, em criança, dançar por entre os raios de luz multifacetados, que os rubis reflectiam, no “PAÍS das borboletas” – um jardim onde tudo se tornava mágico. Lembrava-se do sorriso do pai ao vê-la tão feliz, dançando, nefelibata, de tão criança que era. A inocência espelhada nos risos dos dois quando finalmente caía tonta de tanto rodopiar.

Mas numa tarde sem nome, a mãe numa longa conversa contara-lhe da existência da capela, dos que para ela caminhavam como elefantes para morrer e da loucura que aparentemente assolava o lado feminino da família – o pai permanecera calado, os olhos azul pálidos quase transparentes e não fora em seu socorro como era habitual. A sua juventude fê-la querer esquecer as palavras da mãe que eram como vapor que se diluía na atmosfera. A loucura tinha que ser irreal… Sentia-se tão plena de vida…

Até ao dia em que o pai e a mãe se haviam evolado da sua vida e o terror começara a assombrá-la afastando-a do casulo de serenidade em que se escudara até aí, pois as palavras da mãe ecoavam longínquas, ainda que imbuídas de brumas.

Continuou a olhar em redor e descobriu em cima da ara um outro anel. Este era em ouro branco, trabalhado e com pequenos diamantes. De beleza singular. Era da mãe, tinha a certeza. Cada vez mais a sua mente parecia entrar em nebulosa… surgiam peças que não se encaixavam na verdade de todos os tempos… a morte do pai não fora natural e a mãe parecia ter abandonado pistas ininteligíveis. A noção da sua insanidade levara-a à capela e descoberta atrás de descoberta tudo se desmoronava. Nada fazia sentido.

Os suores frios voltaram.

Os raios de luz que atravessavam a antiga rosácea incidiram no Cristo. Abafou um grito. Alguém fizera com que gotas de cera caíssem no Cristo e o seu olhar estava coberto de lágrimas de cera. Alguém ali estivera enquanto se mantivera inconsciente. Algo estava errado, alguém pretendia mostrar-lhe a capela de uma outra perspectiva.

Percorreu-a em silêncio.

O pai assassinado e abandonado, o anel da mãe, as lágrimas de cera do Cristo… algo tinha que fazer sentido. Ela era a única variável na equação… ninguém poderia prever quando ali iria ter.

Observou melhor o nicho onde estava o Cristo e descobriu mais duas pequenas rosáceas, tal como sucedera na entrada para capela. O método deveria ser o mesmo. Empurrou-as.

Percebeu que se abria um cofre. Com as suas pequenas e ebúrneas mãos tacteou e retirou o que lhe pareceu ser um diário antigo. Ao abri-lo percebeu que a letra era a da sua mãe.

Falava das diversas gerações em que o lado feminino fora votado ao ostracismo de uma falsa loucura. De como os homens da família alimentavam esse logro para não perderem poderes perante os seres que os geravam.

E nas últimas páginas dirigia-se-lhe: “És a última desta geração. Iludi o teu pai fingindo que a minha loucura estava em ebulição… e ele veio atrás de mim. Ter-me-ia morto e tive que sacrificá-lo. Por certo, um dia serias a próxima.

És livre, guarda os anéis, a adaga e a tua insanidade inexistente, neste cofre. Nunca mais se abrirá. Encontrarás ainda neste diário, uma missiva de adopção falsa. Para o mundo ter-te-ei adoptado e a demência morreu comigo. És dona e senhora de todas estas terras e depois de teres entrado na capela quem dela cuidava partiu esquecendo todo este horror. Tal como eu.

Vive filha!"
Raquel

4 comentários:

TMara disse...

há textos k smp me surpreendem pela abordagem. k maravilha este jogo.
Obrigada a todos e ao nosso amigo E.
bjs
Luz e paz

Benó disse...

Faço minhas as palavras da TMara e acrescento um elogio à prosa que está a ganhar à poesia.

Parabéns a todos,por estarmos nesta brincadeira desde o principio,com gosto e imaginação.


Merecemos que o nosso livro tenha a primeira edição esgotada!!!!

Um abraço para todos e

Sejam Felizes!

Maria Clarinda disse...

Hoje amanheci a ler estes textos maravilhosos.
Adorei.
Obrigada a ti e a todos os que os escreveram por tornarem tão lindo o meu dia. Jhs.

Paradoxos disse...

grandes olhares :-)